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Tempo é aliado da aprendizagem

Pesquisa sobre relação de processos de consolidação da memória mostra como crianças pequenas registram informações e valoriza o esquecimento, considerado parte essencial do processo de apreensão de informações 

setembro de 2016
Paula Mesquita
SHUTTERSTOCK

Ensinar uma criança pode ser um desafio, especialmente antes dos 5 anos, quando o desenvolvimento intelectual infantil ainda está começando. Por mais que a mente em formação seja terreno fértil para novos aprendizados, não é raro que informações sejam esquecidas tão logo sejam adquiridas. Freud chamou de amnésia infantil o fenômeno que consiste na incapacidade de menores de  3 ou 4 anos de criar representações estáveis de eventos, motivo pelo qual a maioria das pessoas não consegue trazer memórias mais antigas à consciência. Por outro lado, pesquisas com bebês e crianças pequenas constatam que eles são capazes de criar lembranças de acontecimentos, mesmo que não conscientemente. De qualquer maneira, a memória é seletiva e a capacidade de armazenamento, limitada – o que faz do esquecimento uma condição essencial ao seu normal funcionamento.

Estudos recentes sugerem que crianças de faixa etária pré-escolar são altamente vulneráveis ao que se conhece como interferência retroativa: fenômeno que se dá quando temos uma informação guardada e, diante do aprendizado de um novo dado mais relevante, o sistema nervoso dá prioridade para o segundo. “Às vezes, as lembranças interferem na apreensão de novas experiências”, escrevem Kevin P. Darby e Vladimir M. Sloutsky, da Universidade do Estado de Ohio, em seu estudo publicado na Psychological Science.

A pesquisa parte do conceito da interferência retroativa para investigar os efeitos do processo de fixação de informações na memória de crianças ao introduzir um intervalo de 48 horas entre o aprendizado e o teste. O estudo levantou a possibilidade de que crianças muito jovens não conseguem formar traços de memórias permanentes de imediato, mas são capazes de fazê-lo com o passar do tempo. Segundo evidências, em uma variedade de tarefas dependentes do hipocampo, a passagem de tempo – ou, possivelmente, a combinação de tempo e sono – resulta na consolidação de memórias e, consequentemente, em melhor desempenho na execução de tarefas.

O estudo foi realizado por meio de dois experimentos: na primeira etapa, foi observado que o intervalo melhorou a memória das crianças e eliminou a interferência retroativa. Já os resultados da segunda fase sugeriram que esse benefício estaria limitado a situações em que os pequenos voluntários recebiam informação suficiente para formar uma estrutura complexa de memória. 

“Suspeitamos que o processo de consolidação seja capaz de eliminar interferências e contribuir com a formação de estruturas permanentes de memórias”, afirmam os autores. Segundo eles, em contraste a crianças, adultos demonstraram pouca interferência retroativa, mesmo quando testados imediatamente, o que sugere que são capazes de formar memórias duradouras rapidamente.

Ainda que sejam necessárias pesquisas adicionais, os resultados do trabalho de Darby e Sloutsky revelam que o tempo pode ter notáveis efeitos na memória de uma criança, mesmo que muito pequena. Ou seja: em se tratando da educação dos pequenos, paciência é a chave para bons resultados.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de setembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2cjymOS 

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