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Trabalho auxilia na reabilitação

Emprego pode ajudar jovem infrator a se inserir socialmente, mas empregador deve participar do processo, mostra estudo da UnB

setembro de 2007
Agência UnB
(Agência UnB) − O ideal é que o jovem de baixa renda receba algum tipo de auxílio para conseguir se sustentar. Se ele não tem o apoio de que precisa, é preciso remediar a situação. E uma das coisas que mais podem lhe ajudar é o trabalho. Essa é a conclusão da dissertação de mestrado Adolescente em Conflito com a Lei: Trabalho e Família, da psicóloga Olga Maria Pimentel Jacobina, defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

A pesquisadora, orientada pela professora Liana Furtado Costa, constatou que o trabalho ajuda na reinserção do jovem infrator que cumpre medida socioeducativa, apesar de ser, para eles, uma atividade esvaziada de sentido. “Quem trabalha costuma projetar uma carreira, inclui-la em seu projeto de vida. Mas, para esses jovens, o emprego serve apenas para eles ocuparem a cabeça e pararem de roubar ou mexer com drogas”, explica.

Mas os benefícios vão além disso. De acordo com Olga, o maior ganho que o trabalho, como medida socioeducativa pode garantir para esses jovens é o respeito. “Ao exercer um ofício, eles conseguem um status diferente dentro da própria família. O emprego é um lugar onde eles podem construir sua honestidade. Além do mais, eles garantem uma outra fonte de renda para a família”.

Entretanto, é preciso que o responsável pela contratação desse jovem colabore com seu processo de reinserção. “Muitos dos empregadores acobertam erros dos adolescentes, com medo de prejudicá-los. Mas, ao invés de ajudar, isso atrapalha na recuperação deles”, alerta a psicóloga. Por outro lado, um comportamento exemplar do chefe pode influenciar de forma determinante o futuro desses indivíduos.
“A maioria dos jovens infratores não tem uma referência paterna boa”, lamenta a pesquisadora. Mas, ao conhecer pessoas responsáveis, dignas de admiração, eles podem vislumbrar condições melhores de vida. Olga conta a história de um rapaz que cumpriu sua medida socioeducativa em um hospital e tomou gosto pela coisa. Depois de freqüentar o centro de saúde, ele resolveu entrar em um curso técnico de radiologia.

É por isso que “eles precisam ter acesso ao trabalho, mas as pessoas que os recebem também devem ser educadas”, afirma a psicóloga. Isso acontece muito pouco. Segundo a pesquisadora, poucas empresas conseguem fazer reuniões com os responsáveis pelos garotos.

PESQUISA – Olga realizou sua pesquisa com adolescentes que cumpriam medida socioeducativa no Centro de Desenvolvimento Social (CDS) de Ceilândia, cidade a 25 Km do Plano Piloto. Na época do estudo, 150 jovens freqüentavam o CDS. Para avaliar o significado do trabalho na vida deles, a psicóloga foi atrás daqueles que estavam empregados, e se surpreendeu ao encontrar tão poucos formalmente ligados a uma empresa. “Muitos trabalhavam como cobradores em vans, mas era tudo muito incerto, sem vínculo empregatício”, comenta a psicóloga, que acabou selecionando três dos jovens regularmente empregados para investigar sua relação com o trabalho.

Também por meio de entrevistas com as famílias desses rapazes, a pesquisadora identificou que, apesar de tudo, o trabalho é imprescindível para a recuperação. Principalmente porque a escola não costuma suprir as necessidades dos adolescentes. “No colégio, a situação deles é mais complicada, é um ambiente que exclui mais ainda”, considera Olga. Outro problema é que os jovens costumam utilizar sua bolsa de reinserção (recebida pelos que estudam) para ajudar nas contas da casa. O dinheiro, que deveria contribuir para a sua independência, acaba tornando-os mais dependentes.