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Transformação e psicanálise em "A Garota Dinamarquesa"

Realizado com base na história real da primeira cirurgia de redesignação sexual da história, filme – sem homens como protagonistas – evoca discussão sobre afetos, sublimação e constituição do sujeito 

maio de 2016
Pedro Ambra
DIVULGAÇÃO

Uma transformação inimaginável, mas que pouco a pouco torna-se evidente, necessária e inevitável. É esse o mote que guia a trama de A garota dinamarquesa, dirigida por Tom Hoper. Na história, Gerda (Alicia Vikander) e Einer (Eddie Redmayne), um feliz casal de pintores na Dinamarca do período entreguerras, tem uma vida a dois que se pode chamar de estável. Tudo muda após uma brincadeira: Einer traveste-se de mulher e assume o nome de Lili, para acompanhar Gerda em um baile sem ser notado. Esse ato funda uma nova subjetividade e, a partir de então, é Lili quem rouba a cena. E, graças à impressionante atuação de Redmayne, demonstra que é Einer na verdade a farsa.

Um dos méritos do filme, embasado em uma história real, é justamente conduzir a narrativa problematizando não apenas a experiência de Lili, mas a reação que ela provoca nos amigos, na própria esposa, no contexto público, na medicina. O drama encontra seu ápice ao aventar-se a possibilidade da realização de uma cirurgia de redesignação sexual – a primeira na história – por meio da qual Lili estaria livre do último elo com Einer. 

A escolha de empreender uma produção de grande porte como essa, ambientada há quase um século, parece servir para relançar alguns problemas. Se hoje tal procedimento é de baixo risco, na época suas chances de fracasso eram altíssimas. Paradoxalmente, a sobrevivência de Lili poderia implicar em sua morte. Igualmente, graças à organização política, pessoas trans podem hoje encontrar certo amparo e trocas de experiências e saberes entre si, o que não era o caso nos anos de 1920. 

Essa diferença serve para destacar o papel central de Gerda, que mesmo sabendo que tal caminho implicaria no fim de seu casamento, apoia incondicionalmente Lili na busca por sua identidade e por sua nova vida. Lembremos aqui que o simples fato de uma narrativa se desenrolar majoritariamente entre duas mulheres já coloca a produção dentro de uma minoria de filmes que não tem homens como protagonistas, o que é ainda novo para Hollywood. Tal assimetria é tematizada diretamente no filme na medida em que mostra as dificuldades que Gerda, por ser mulher, encontrava para viver de sua arte, ao passo que o (então) marido Einer, gozava de um sucesso retumbante. No entanto, sua situação muda, ao usar Lili como modelo: sua relação migra da cama para a tela, evocando uma imagem acabada de uma das versões freudianas da sublimação, processo psíquico no qual se abre mão de uma satisfação sexual direta em benefício de uma atividade cultural. Gerda conhece assim um sucesso inesperado a partir dos retratos que pinta de Lili, ao passo que esta se recusa a (voltar a) pintar: “Quero ser uma mulher, não uma pintora”, diz.

O sucesso do filme mede-se em grande parte pelo momento de seu lançamento. As questões trans estão na pauta do dia do debate público, ainda que em larga medida como uma resistência por parte daqueles que as consideram secundárias ou ameaça à “família”. Mas tais reações só mostram a força do que já pode ser chamado de quarta onda do feminismo e que parece ter vindo para ficar: uma organização horizontal de mulheres que consideram questões trans, de raça e classe econômica, utilizando a internet como meio de difusão e debate de suas ideias. Seja nas escolas ou nas empresas, nas universidades ou nas ruas, questões que eram inviáveis no passado hoje ganham espaço e ajudam a formar o ambiente ideal para a recepção de um filme como esse. É claro que a temática não é nova no cinema. Lembremos de Transamérica (2005), de XXY (2007) e de diversos filmes de Pedro Almodóvar sobre a temática já na década de 80. Mas pela primeira vez ela encontra tanto uma bilheteria quanto uma narrativa para o grande público. E tal mudança faz parte de um quadro maior: a escolha pelo protagonismo feminino e negro em Star Wars (2015), o drama Carol (2015), bem como a aclamada primeira temporada da série Jessica Jones (2015) – para muitos uma grande metáfora de uma forma contemporânea da dominação masculina e suas formas de resistência – mostram que a indústria cinematográfica está atenta para os novos interesses do público. A polêmica envolvendo a não indicação de atores negros ao Oscar em 2016 é um indicativo dessa mudança.

Lili é uma mulher à frente do seu tempo tanto no sentido de vanguarda social quanto da antecipação do sujeito, tal como a psicanálise a concebe. Quando uma amiga do casal, ao ver Einer travestido pela primeira vez, exclama: “Vamos chamar você de Lili!”. Einer antecipa Lili como uma unidade completa – com sonhos, desejos e gostos distintos. E a partir dessa representação de um outro em si, não há mais volta. A nomeação de Alicia Vikander e Eddie Redmayne para o Oscar de 2016 talvez sublinhe o início de uma transformação do tipo de histórias que podem ser contadas. Se a grande questão para Lili é até que ponto uma transformação pode ir sem colocar em risco sua vida, caberia perguntar: estaria Hollywood preparada para uma mudança igualmente radical? 

A garota dinamarquesa
119 min – EUA, 2015
Direção: Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de maio de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1TzlwUW 

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