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Trânsito e comportamento

Documentário aborda situações cotidianas do trânsito e do transporte coletivo de São Paulo a partir da história de 15 personagens reais

junho de 2007
Agência Fapesp
(Agência Fapesp) – A região metropolitana de São Paulo, quinta maior concentração humana do planeta, reúne aproximadamente 17 milhões de habitantes que circulam diariamente entre mais de 1.500 quilômetros quadrados, por meio de diferentes meios de transporte. De casa para o trabalho e vice-versa, as pessoas costumam gastar horas nos trajetos. Esse é o cenário do documentário Em Trânsito, que em 96 minutos aborda situações cotidianas do trânsito e do transporte coletivo de São Paulo a partir da história de 15 personagens reais.

O cotidiano dos moradores da Grande São Paulo no trânsito e no transporte coletivo se articula com outras dimensões de suas vidas. Entender essa articulação foi um dos pontos de partida do produtor do documentário, Henri Arraes Gervaiseau.

Franco-brasileiro, Gervaiseau morou muito tempo em Paris, uma cidade onde o transporte coletivo funciona. Quando se instalou no Brasil, no início da década de 1980, ficou impressionado com a dificuldade enfrentada pela maioria dos moradores de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro nos seus deslocamentos diários.

“Eu circulava basicamente de ônibus e de metrô. Nessa experiência pude constatar o longo tempo passado, diariamente, pela maioria das pessoas no trânsito e no transporte público”, contou Gervaiseau à Agência Fapesp.
Em Trânsito mostra como as pessoas se relacionam nos espaços do transporte público e o que fazem durante as horas que passam no tráfego. Lêem, pensam, falam ao celular, olham a “paisagem”, conhecem gente. O trânsito pode aproximar as pessoas: a mãe aproveita o momento com a filha no carro para conversar, os vizinhos de cadeira do transporte coletivo se conhecem. Mas também pode distanciar: as horas perdidas na ida e vinda do trabalho somadas à jornada de cerca de 10 horas podem prejudicar – e muito – a vida social e em família, como relata um dos personagens – um motorista de ônibus.

Crítica social

A temática da sociabilidade é o ponto de intersecção do documentário com as pesquisas realizadas no Centro de Estudos da Metrópole (CEM), onde o filme foi produzido. O CEM, cujo Núcleo de Audiovisual é coordenado por Gervaiseau, é um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP.

Em Trânsito foi filmado em 2003, em um trabalho de aproximadamente um ano que envolveu dez pessoas. A FAPESP concedeu apoio financeiro e de produção em parceria com o Sesc-SP. O patrocínio ficou por conta da BR Distribuidora e do Banco Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O documentário vai além das questões do transporte e aborda as diferenças sociais latentes na metrópole. Como exemplo disso está um dos personagens centrais do filme, Virgínia. Ela representa milhares de habitantes de São Paulo que vão trabalhar andando, saindo das periferias rumo à região nobre e central. São 11 quilômetros em aproximadamente 2 horas até chegar ao trabalho, onde atua como empregada doméstica. Na volta, o mesmo percurso a pé. Ela não tem dinheiro para usar o transporte coletivo.
Junto com Virgínia, outros personagens reais retratam o morador da periferia que enfrenta dificuldades para se locomover: fazem longas caminhadas até os pontos de ônibus, são obrigados a usar os veículos mais velhos da frota (que ficam nas regiões periféricas) e enfrentam o transporte lotado.

O morador das regiões nobres e centrais da cidade não fica de fora do documentário e o modo como interage com o transporte também é abordado. Um dos personagens, morador da zona Sul, usa carro para se locomover e anda armado para se defender. Já teve quatro carros roubados, justifica. Outra personagem, habitante da mesma região e igualmente motorizada, já não concebe sua vida sem o seu carro. Eles estão entre os 5 milhões de automóveis que trafegam pela cidade diariamente.

Apesar de o foco do documentário ser a questão do transporte, um dos objetivos iniciais do projeto foi tratar também da desigualdade social: "Quisemos efetivamente realizar uma crítica social, abordando as diferenças sociais na cidade", revela Gervaiseau.
Pesquisa e difusão

O CEM se dedica ao estudo das dinâmicas recentes de transformação urbana, com destaque para a Região Metropolitana de São Paulo. Suas pesquisas procuram trabalhar as questões ligadas à metrópole de maneira multidisciplinar, passando por áreas como urbanismo, demografia, antropologia, ciência política, comunicação e sociologia.

Desde a sua criação – em 2001 – até 2005, foram desenvolvidos trabalhos nas áreas de Urbanismo, Demografia, Estudos do Trabalho, Política e Políticas Públicas, Conflitos Urbanos e Associativismo e Cultura. Até 2008, o objetivo é seguir os estudos em três grandes áreas: “mercado de trabalho”, “condições de vida” e “sociabilidade e vida urbana”.

O CEM já produziu outros dois documentários. A Moda do Centro, sobre os circuitos étnicos em torno da indústria têxtil do bairro paulistano do Bom Retiro, e 5 Mulheres de Paraisopólis, uma perspectiva feminina sobre a vida na favela de Paraisópolis (SP). O Centro conta ainda com a revista eletrônica de divulgação científica DiverCIDADE, que também aborda temas ligados à metrópole.

O documentário Em trânsito já esteve em cartaz no CineBombril, em São Paulo, e agora deve seguir para Salvador (BA), ainda sem data marcada. A programação, bem como mais informações sobre o filme (incluindo um trailer), podem ser conferidos no site oficial do filme.

Mais informações:
www.emtransito.com.br