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Transplante de neurônios é esperança para restaurar a visão

Técnica tem potencial para tratar lesões e dor crônica, mas sua eficácia ainda não foi comprovada em humanos

junho de 2016
CORBIS/ISTOCK

Cérebros jovens são plásticos, ou seja, seus circuitos podem ser facilmente religados para favorecer a aprendizagem. No entanto, na idade adulta, o sistema nervoso perde parte dessa capacidade e, depois de um acidente vascular cerebral, por exemplo, costuma ter dificuldade para recuperar as funções prejudicadas. Entretanto, algo mudou nesse quadro: cientistas restauraram completamente a plasticidade em ratos adultos por meio do transplante de neurônios jovens no cérebro dos animais e, nesse processo, conseguiram curar suas deficiências visuais graves.

Em um estudo inovador publicado na Neuron, uma equipe de neurocientistas liderados pelo neurobiólogo Sunil Gandhi, da Universidade da Califórnia em Irvine, transplantou células-tronco embrionárias de camundongos no sistema nervoso de outros ratos. As células foram preparadas para se transformar em neurônios inibitórios, diminuindo a atividade neural. “Antes dessa pesquisa, muitos duvidavam que o cérebro adulto pudesse permitir que essas células se espalhassem, integrassem e reativassem a plasticidade de forma tão ampla”, diz a geneticista molecular Melissa Davis, uma das principais autoras do estudo. 

Os cientistas têm motivo para comemorar, pois há anos tentam essa façanha, refinando os métodos ao longo do caminho. E a equipe de Irvine finalmente teve sucesso: as células foram integradas no cérebro e se religaram em grande escala, restaurando a plasticidade de alto nível de desenvolvimento precoce. Em ratos com deficiência visual, o transplante permitiu o reestabelecimento da acuidade normal, como foi demonstrado por exames dos sinais nervosos visuais e um teste de labirinto, incluindo exercícios de natação. 

Os cientistas ainda não testaram a técnica de transplante para outros distúrbios neurológicos, mas acreditam que ela tem potencial para tratar diversos outros problemas e lesões, dependendo de como os novos neurônios restauram a plasticidade. Ainda não se sabe se a proliferação das células transplantadas é responsável pela recomposição da capacidade neural de desenvolver novas conexões ou se as células recém-chegadas provocam plasticidade em neurônios existentes. Nesse último caso, o tratamento poderia estimular a cura e a reconexão do sistema nervoso após lesão cerebral traumática ou acidente vascular cerebral.

A equipe optou por trabalhar com neurônios inibitórios por mostrarem maior potencial em experimentos anteriores. Esse tipo específico de célula neural traz também uma esperança clínica particular, já que muitos distúrbios psiquiátricos e neurológicos envolvem desequilíbrios entre excitação e inibição, como a epilepsia, a esquizofrenia e a dor crônica. 

Vários laboratórios, incluindo o da Escola de Medicina Perleman, da Universidade da Pensilvânia, liderado pelo neurocientista Stewart Anderson, demonstraram que transplantar neurônios inibitórios de camundongos saudáveis em ratos com modelos dessas doenças ajuda a diminuir os sintomas. O novo método poderia permitir alterações cerebrais mais generalizadas, erradicando potencialmente a patologia. “Para as pessoas que não se beneficiam de medicamentos, um notável tratamento como o transplante neural poderia ser transformador”, diz Anderson.

Mas nem tudo são flores: muitos obstáculos im-pedem que a técnica seja utilizada em humanos. Primeiro, as células-tronco de camundongos podem não ser eficazes ou seguras para transplante em pessoas. E os cientistas ainda não sabem como “persuadi-las” a se tornar o tipo de neurônio precursor necessário para o procedimento. Além disso, o material transplantado demora mais de um mês para amadurecer no cérebro do rato destinatário; células humanas levariam, em teoria, muito mais tempo, talvez anos.

Ainda assim, apesar dos obstáculos, os especialistas estão animados com os avanços. Eles acreditam que o transplante neural pode um dia fornecer uma terapia baseada em células de forma eficaz e, mais importante, um tratamento permanente de doenças relacionadas com a idade e o desenvolvimento. (Por Jessica Schmerler, jornalista neurocientífica)

Esta matéria foi originalmente publicada na edição de junho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1UbjWih 



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