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Trauma pode deixar heranças biológicas

Filhos de sobreviventes do holocausto apresentam alteração nos níveis de hormônios do estresse

abril de 2015
SHUTTERSTOCK

É possível que uma grande tragédia cause impactos tão profundos em uma pessoa a ponto de a “memória biológica” do trauma ser transmitida para seus descendentes? Um grupo de pesquisa da Escola Icahn de Medicina Monte Sinai considera que sim. A equipe liderada pela psicóloga Rachel Yehuda estuda epigenética – a influência de fatores ambientais sobre a expressão dos genes –, concentrando-se no efeito intergeracional de experiências traumáticas em famílias de sobreviventes de tragédias em massa, como o Holocausto. Uma das descobertas é que filhos de judeus que escaparam do genocídio têm níveis alterados de hormônios do estresse em seu organismo.

Em um estudo prévio, o grupo de Yehuda mostrou que sobreviventes de campos de concentração apresentam, em comparação a adultos semitas da mesma idade que não tiveram essa vivência, níveis mais baixos de cortisol, um hormônio que ajuda o corpo a voltar ao normal após o trauma. Aqueles que sofreram de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) têm quantidades ainda mais baixas.

Não está claro por que essas pessoas produzem menos cortisol, mas a equipe descobriu recentemente que os sobreviventes têm também níveis comparativamente mais baixos de uma enzima que decompõe o hormônio. A adaptação faz sentido: a redução da atividade enzimática garante mais cortisol livre no corpo, o que permite a fígado e rins aumentar reservas de glicose e combustíveis metabólicos – uma ótima resposta à fome prolongada e outras ameaças. Quanto mais jovens os sobreviventes eram durante a Segunda Guerra Mundial, menor era a quantidade da enzima apresentada na idade adulta. Os resultados fortalecem outros estudos epigenéticos com seres humanos que mostram que os efeitos de muitos anos e, em alguns casos, por gerações (veja quadro na pág. seguinte).

No estudo mais recente, com descendentes diretos de sobreviventes do Holocausto, o grupo de pesquisa da Monte Sinai observou que, como seus pais, muitos apresentavam baixas quantidades de cortisol, principalmente os que tinham mães com sintomas de TEPT. No entanto, ao contrário dos genitores, mostravam níveis médios mais elevados da substância que decompõe o hormônio. A autora e seus colegas acreditam que essa adaptação ocorre no estágio intrauterino, pois, em geral, a enzima está presente na placenta em níveis elevados para proteger o feto da circulação de cortisol na mãe. Se as sobreviventes grávidas tinham baixa quantidade da enzima nesse órgão, mais hormônio poderia chegar ao embrião, que, em seguida, desenvolveria níveis elevados da enzima para se proteger.

A autora do estudo afirma que as alterações epigenéticas podem servir para preparar biologicamente a prole para um ambiente semelhante ao dos pais. Nesse caso, porém, as necessidades do feto parecem ter superado esse objetivo. Com baixos níveis de cortisol e quantidades elevadas da enzima que o decompõe, muitos descendentes de sobreviventes do Holocausto não seriam bem adaptados para a privação de comida. De fato, esse perfil do hormônio do estresse poderia deixá-los mais suscetíveis ao TEPT (destacado em amarelo no quadro). Estudos anteriores sugerem que filhos de vítimas da perseguição aos judeus são mais vulneráveis aos efeitos do estresse e mais propensos a apresentar sintomas de transtorno de ansiedade. Podem apresentar também maior risco de desenvolver síndromes metabólicas relacionadas com a idade, como obesidade, hipertensão e resistência à insulina, particularmente em lugares onde há fartura.

No entanto, os resultados desse estudo sobre epigenética e sistema de resposta ao estresse são preliminares. Ainda é muito cedo para determinar com certeza se as alterações moleculares de fato indicam riscos ou benefícios. “Os dados ainda não se encaixam completamente, estamos no início da pesquisa”, diz Yehuda.

 

Esta matéria foi originalmente publicada na edição de abril de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8

 

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