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Truques revelados pelas neurociências

Artigo escrito por cientistas e ilusionistas explica números apresentados pelos mágicos

outubro de 2008
©DIMCLAIRE/SHUTTERSTOCK
Aptidão Cerebral estabiliza imagens que piscam em alta freqüência e garantem ilusão de desaparecimento de objetos e pessoas
Ninguém melhor que os mágicos conhece as artimanhas para ludibriar nossa percepção. É sem dúvida um conhecimento prático, herdado de uma tradição antiqüíssima que não se aprende em escolas ou em livros. Mas se existe uma coisa da qual os ilusionistas nunca abriram mão é dos segredos de seus truques. Por isso é que surpreende a publicação de um artigo na revista Nature Neurosciences, assinado por dois neurocientistas e quatro ilusionistas de renome dos Estados Unidos. O texto revela as bases neurocientíficas de alguns dos números mais conhecidos, que fascinam platéias há séculos. “A mágica é uma fonte rica de insights sobre atenção e percepção (...) e há casos em que o conhecimento intuitivo dos mágicos é superior ao dos neurocientistas”, escrevem os autores, justificando o objetivo do relato, de que as explicações embasadas pela ciência não tiram a graça de nenhum show de mágica a que ainda possamos assistir no futuro.

Um dos truques revelados no artigo está relacionado ao fenômeno de persistência da imagem no cérebro dos espectadores de algo que já não está diante deles – mas parece estar ali. Exemplo: a assistente do mágico muda de vestido, de um branco para um vermelho, instantaneamente. Entre uma situação e outra, uma luz vermelha tinge todo o palco. À primeira vista a roupa vermelha parece ser somente o efeito da iluminação. No entanto, em seguida uma luz branca confirma que a mulher está, de fato, vestindo vermelho. Agora, o pulo do gato: quando a luz vermelha é desligada, há um curtíssimo período de escuridão, durante o qual o cérebro do espectador produz uma “pós-imagem” do vestido vermelho, que persistiu tempo suficiente (cerca de 100 ms) para que a assistente se livrasse da roupa vermelha. Quando a luz branca é acesa, ela aparece com o vestido branco que esteve sempre por baixo. Como a platéia não se dá conta do período escuro, fica de queixo caído. Segundo os pesquisadores, a pós-imagem que permitiu o truque é um recurso do cérebro para estabilizar imagens que piscam em alta freqüência.

Os autores descrevem ainda outros truques que incluem o aparecimento, o desaparecimento ou a aparente transformação de objetos, a levitação e a clarividência. O artigo é uma síntese do Simpósio sobre mágica e consciência que aconteceu em Las Vegas no ano passado, cujo objetivo foi aproximar estas duas áreas para entender melhor os meandros cognitivos da mente humana. O texto está disponível no site www.nature.com/nrn/journal/vaop/ncurrent/suppinfo/nrn2473.html, acompanhado de vídeos do evento, em que os mágicos demonstram toda sua expertise para uma platéia formada por neurocientistas que, apesar de sua formação, não ficaram menos embasbacados.