Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

UFRJ cria cirurgia para devolver movimento de mãos transplantadas

maio de 2009
Coleção Particular
Uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ) traz esperança a pacientes que sofreram amputação de ambas as mãos, procedimento radical e incapacitante que pode ser necessário em casos graves de septicemia, por exemplo. Uma cirurgia de transplante bilateral tem conseguido recuperar parcialmente a sensibilidade e os movimentos dos novos membros, explica a pesquisadora Cláudia D. Vargas, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, coordenadora do estudo.

“O procedimento consiste na reconexão cirúrgica de nervos e tendões de um doador no coto do paciente recipiente. Os ossos são unidos por parafusos”, explica Vargas. Os pacientes biamputados passam por uma bateria de avaliações físicas e psicológicas antes de serem considerados aptos ao transplante. A cirurgia, que dura cerca de 15 horas, já foi realizada em dois pacientes. O principal desafio é buscar no cérebro as representações motoras correspondentes à mão do doador. “Mostramos que os pacientes são capazes de realizar movimentos finos com as novas mãos, após alguns meses de árduo trabalho fisioterápico. Isso indica que o córtex motor se adapta ao novo contexto”, diz Cláudia.

Até agora os resultados da pesquisa mostraram que as representações dos movimentos finos da mão, assim como a reversão da reorganização sensório-motora induzida pela amputação, são menos robustas na região motora do hemisfério esquerdo. “Esse é o lado do cérebro que controla a mão dominante em pessoas destras”, explica a pesquisadora. Segundo ela, pelo menos duas hipóteses para explicar esse efeito. A primeira é que o uso de próteses funcionais, antes mesmo do transplante, poderia ter provocado uma reorganização precoce das representações. “Isso teria tornado o córtex motor contralateral à mão dominante menos ‘plástico’.” A segunda hipótese é que essa assimetria na capacidade de reorganização seja derivada da própria preferência manual. “Ou seja, do fato de que os circuitos relacionados ao controle da mão dominante fossem ao mesmo tempo mais especialistas e menos flexíveis, em relação aos da mão não-dominante”, constata Vargas.

A reorganização motora após o transplante tem sido avaliada por técnicas de ressonância magnética funcional e estimulação magnética transcraniana. “Concluímos que as mãos do doador são incorporadas ao esquema motor da pessoa que passa pelo procedimento. Até agora, o que está mais bem estabelecido são as reorganizações motoras induzidas pelo transplante. Se conhece pouco sobre os aspectos sensoriais, mas sabemos que os pacientes voltam a ter sensações bem localizadas nas mãos”, relata. A pesquisa vem sendo feita em colaboração com especialistas do Hospital Edouard Harriot de Lyon, França. (Com informações da assessoria de imprensa da Universidade Federal do Rio de Janeiro)