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Ultrassom focalizado para curar doenças do cérebro

Pesquisadores testam ondas sonoras para driblar a barreira hematoencefálica e tratar desde tumores cerebrais até Alzheimer

janeiro de 2015
Bret Stetka
VikaSuh/Shutterstock

O cérebro conta com defesas formidáveis. Além do crânio, as células que formam a barreira hematoencefálica ajudam a impedir que substâncias tóxicas e patogênicas atinjam o sistema nervoso central. Desvantagem dessa proteção é que ela bloqueia o acesso de medicamentos ao cérebro. Agora, pesquisadores testam uma nova abordagem para atravessar essa barreira: as ondas sonoras.

O físico e médico Kullervo Hynynen e sua equipe do Instituto de Pesquisa Sunnybrook, em Toronto, estudam uma técnica para administrar medicamento por meio de uma injeção de bolhas microscópicas de gás. Depois da inoculação, os pacientes usam uma touca que direciona as ondas sonoras para locais específicos do cérebro, abordagem chamada de ultrassom focalizado de alta intensidade. As oscilações fazem as bolhas vibrar, afastando temporariamente as células da barreira hematoencefálica, o que permite infiltrar medicamentos no cérebro. Hynynen e seus colegas estudam aplicar o método para administrar quimioterapia em pacientes com tumores cerebrais. Eles e outros grupos planejam testes semelhantes com pessoas que sofrem de outras doenças do cérebro, como Alzheimer.

Os médicos começam a considerar esse recurso como alternativa à cirurgia cerebral. Pacientes com distúrbios do movimento, como Parkinson e distonia, cada vez mais recebem tratamento por meio de eletrodos implantados, capazes de interferir na atividade cerebral irregular. Pesquisadores da Universidade da Virgínia esperam usar o ultrassom focalizado para administrar lesões térmicas por radiofrequência profundamente no cérebro sem a necessidade de cirurgia convencional. 

“Utilizar o ultrassom para causar lesões no corpo não é um conceito novo. A abordagem, porém, não pode ser aplicada no cérebro devido ao contorno, densidade e espessura do crânio”, diz o neurologista Binit Shah, da Universidade da Virgínia. A nova técnica, segundo ele, supera esse obstáculo: é capaz de apontar mais de mil flashes de luz numa área-alvo. Os resultados preliminares de Shah e seus colegas com pacientes com tremor essencial (problema neurológico comum, geralmente benigno, que causa tremores nas mãos e braços) foram publicados no New England Journal of Medicine, no ano passado. Eles constataram que a lesão ultrassônica de parte do tálamo ajudou a diminuir a agitação motora. Agora, pretendem expandir os resultados da pesquisa e lançar outros estudos pilotos para explorar sintomas de Parkinson. 

Os benefícios do ultrassom focalizado podem se estender muito além da restauração da mobilidade e administração de drogas. Outros grupos de pesquisa exploram sua utilização também no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e da dor neuropática. 

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