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Um controle remoto na sua cabeça

Esqueça leitura de voz ou reconhecimento de gestos. Em breve gadgets poderão se conectar diretamente ao cérebro

abril de 2015
David Pogue
SHUTTERSTOCK

Ótimo: podemos controlar nossos telefones com leitura de voz e nossa televisão com reconhecimento de gestos. Mas essas tecnologias podem em breve parecer ultrapassadas: cientistas estão buscando atualmente o reconhecimento de pensamentos.

A tecnologia de interface cérebro-computador (BCI, em inglês) parece não ter avançado muito. Já tentei, por exemplo, fazer um helicóptero de brinquedo levantar voo pensando “suba” enquanto usava um aparelho de eletroencefalograma (EEG) comercial de US$ 300. Ele mal funcionou.

Esses capacetes para “ler mentes” não são invasivos e são fáceis e rápidos de colocar. Eles captam sinais elétricos superficiais (e fracos) da atividade cerebral através do couro cabeludo. Mas não são capazes de distinguir onde esses sinais se originaram no cérebro. Além disso, o software do aparelho não tinha como interpretar que eu estava pensando “suba”. Eu poderia ter pensado “bobo”, “cadarço”, “picles” ou o que eu quisesse durante a sessão de treino de 15 segundos.

Existem outros escâneres cerebrais não invasivos – magnetoencefalografia, tomografia por emissão de pósitrons, espectroscopia no infravermelho próximo e assim por diante –, mas cada um deles tem suas limitações.

Claro, é possível implantar sensores dentro do crânio de alguém para fazer leituras melhores. Pacientes incapazes de se movimentar já manipularam cursores de computador e braços robóticos usando essa abordagem com sucesso. Uma cirurgia cerebral, porém, é um procedimento altamente invasivo.

Minha descoberta mais surpreendente veio da Universidade Carnegie Mellon, Pensilvânia, onde o neurocientista cognitivo Marcel Just e o pesquisador de inteligência artificial Tim Mit-chell estão usando escâneres de ressonância magnética funcional (fMRI) para fazer verdadeiras leituras da mente – ou reconhecimento de pensamentos, como eles, mais responsavelmente, descrevem.

Quando deitei no aparelho de ressonância, vi 20 imagens na tela (morango, arranha-céu e caverna eram algumas). Fui instruído a imaginar as qualidades de cada objeto. A cada dois itens o computador tentaria descobrir a sequência de imagens que eu havia acabado de ver (se o morango veio antes do arranha-céu, por exemplo). A máquina acertou em 100% das vezes.

O que acontece é que, independentemente de nosso idioma nativo ou história pessoal, as mesmas partes do cérebro “acendem” quando pensamos em certos substantivos. Para “morango” podemos pensar “vermelho”, “comer”, ou “segurar na mão”. O computador sabe que áreas do cérebro estão ativas para quais qualidades. O sistema pode também chutar em qual número você está pensando, ou qual de 15 emoções está sentindo.

Mas ainda é muito cedo para podermos trocar os canais da TV simplesmente pensando “CNN” ou “Discovery”. Atualmente, a maior parte da pesquisa com BCI se concentra em criar meios para ajudar deficientes a se mover, ou em detectar mentiras. E esse trabalho está suscitando muitas questões sobre ética, privacidade e credibilidade. Haverá outras questões quando o reconhecimento de pensamentos for parar nos gadgets. O que acontece se nos distrairmos quando estivermos ditando mentalmente um e-mail? Quem vence se você e sua esposa pensarem em dois canais diferentes? E quem vai se submeter a uma ressonância magnética para ajustar o volume da música?

Just, que comanda o Centro de Imageamento Cerebral Cognitivo na Carnegie Mellon, não está preocupado com essa parte. “Nossa máquina é um monstro”, contou-me ele. “Mas um dia algum biofísico vai desenvolver um dispositivo muito menor, provavelmente funcionando com um princípio diferente.” Ainda é cedo demais para saber o que acontecerá com a BCI ou mesmo se a tecnologia vai decolar. E isso é bom. Afinal, quando alguém inventou a roda, provavelmente não imaginou trens de alta velocidade, montanhas-russas ou mesmo um skate imediatamente.

Mesmo assim, leram minha mente, e eu acredito. Algo está a caminho, e milhões de dólares estão sendo investidos no esforço de melhorar essas tecnologias.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de abril de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8

 

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