Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Um espetáculo dos olhos para dentro

Vendados, espectadores ouvem trechos de textos de Cecília Meirelles, Adélia Prado e outros

outubro de 2007
DETALHE DE A PROFETISA, 1595-98. OLÉO SOBRE TELA DE CARAVAGGIO, MUSEU DO LOUVRE, PARIS
A maioria absoluta dos espetáculos de teatro transcorre diante do público. Ultimamente, nas propostas mais interativas, a ação se passa, no máximo, ao redor de quem assiste. No caso de Performance horizontal, a história ganha corpo “dos olhos para dentro” de cada espectador. Logo no início da apresentação as pessoas são convidadas a se vendar e a deitar sobre um colchonete. Começa aí uma experiência inusitada: uma espécie de jornada em direção a múltiplas percepções. “O espectador não assiste: sente”, diz a diretora Thereza Piffer.

Durante a performance, a platéia recebe estímulos sensoriais: ouve sons diversos e recebe toques nas mãos, nos braços, no rosto e nas pernas enquanto ouve trechos de obras de Hilda Hilst, Marina Colasanti, Cecília Meirelles, Adélia Prado, Ana Cristina César, Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Antonio Tomé e Antonio Maria que falam sobre adormecer e sonhar -– tudo na horizontal. A diretora compara os gestos dos atores (que não só declamam, mas interpretam os textos) ao ato de contar histórias às crianças antes de dormir e garante que o espetáculo oferece uma possibilidade lúdica de autoconhecimento.

Manter-se de olhos fechados e abrir-se para o contato com um estranho nem sempre é uma experiência fácil. Mas pode ser muito interessante. Principalmente para quem se propõe trabalhar com pessoas.

Vez ou outra, sente-se o roçar suave de um tecido leve ou de uma pluma. “Usamos várias formas pouco comuns de nos aproximarmos das pessoas. A proposta é justamente chegar a elas de uma maneira que as surpreenda; mas também oferecemos aconchego por meio da palavra e do toque, queremos atingir o imaginário, brincar com fantasias e ampliar a percepção do próprio corpo, despertando o interesse das platéias pelos autores apresentados”, afirma Piffer.

Seguindo o mesmo estilo de Horizontal, a companhia montou Performance sensorial, na qual a platéia é estimulada também sensorialmente, mas todos permanecem sentados. Para desenvolver esse trabalho, os atores aprenderam técnicas de massagem. Outro aspecto que se destaca nas montagens é a inserção do deficiente visual no teatro – um espaço raramente freqüentado por esse público. Para facilitar a inclusão, foi produzida uma versão em braile da programação dos espetáculos.