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Um hormônio especial para momentos especiais

Peptídeo essencial para lactação, orgasmo e afeto pode ajudar a entender dinâmica neural

setembro de 2008
©NAJIN/SHUTTERSTOCK
Oxitocina, liberada no sangue, favorece “instinto materno”
A oxitocina é um hormônio com papel fundamental em momentos específicos da vida do ser humano, particularmente na das mulheres. As contrações do parto e a lactação são resultado da secreção de grandes quantidades desse peptídeo, produzido no cérebro e liberado na corrente sangüínea. A substância também tem ação fundamental durante o orgasmo de pessoas de ambos os sexos – e também atua como neurotransmissor. Está relacionada ao afeto, à confiança e, obviamente, ao comportamento maternal. A novidade é que, investigando como funcionam as células produtoras de oxitocina no cérebro, pesquisadores europeus chegaram a conclusões surpreendentes, e que podem ajudar a entender novas facetas do processamento neural.

Os neurônios produtores de oxitocina, localizados no hipotálamo, normalmente produzem de um a três impulsos elétricos por segundo. Mas quando o bebê suga o mamilo da mãe, essas células disparam intensa e simultaneamente a cada 5 minutos, o que culmina em um pico de oxitocina na circulação. Os pesquisadores nunca entenderam bem como um grupo tão pequeno de células era capaz de tal feito. Mas usando um modelo computacional que integra evidências coletadas em diversos experimentos, pesquisadores da Universidade de Warwick, Inglaterra, em colaboração com colegas escoceses, italianos e chineses, perceberam que essas células liberam o peptídeo por meio de um mecanismo incomum: em vez de usarem apenas os axônios, a parte terminal dos neurônios, onde isso geralmente ocorre, a oxitocina é secretada também pelos dendritos, a porção inicial da célula, que na maioria dos neurônios apenas recebe informação – jamais envia.

A liberação do “hormônio do amor”, como a oxitocina é também conhecida, promove então um efeito difuso que se estende rapidamente por outros neurônios, estimulando ainda mais sua liberação. Os cientistas chamam esse padrão de atividade de “processo emergente” e que pode ser comparado ao movimento de cardumes, em que o deslocamento coletivo, estritamente coordenado, se desenvolve na ausência de um líder.

Segundo os autores, o modelo usado sugere que as interações nos dendritos acabam deflagrando uma tremenda retroalimentação positiva que amplifica o estímulo para liberação do hormônio. Publicado no PLoS Computational Biology, o estudo fornece uma possível explicação para um fenômeno importante e que pode ser útil para compreender o processamento de diversas outras áreas do cérebro.