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Um passeio pela vida e obra de Bispo do Rosário

Mostra em museu da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, traz 60 produções e fotos inéditas do artista plástico, ex-interno do hospital psiquiátrico que funcionou no local. Público pode visitar as dependências da instituição onde ele viveu 

julho de 2016
JEAN MANZON/DIVULGAÇÃO

Registros raros de Bispo feitos pelo fotógrafo francês Jean Manzon em ensaio para a revista O Cruzeiro, em 1943, são exibidos pela primeira vez

“Qual a cor da minha aura?” – era uma das perguntas que Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) fazia para testar quem tentava visitar a cela que ocupava sozinho em um dos pavilhões da Colônia Juliano Moreira, centro psiquiátrico onde viveu por meio século, diagnosticado como “esquizofrênico-paranoico” depois de, durante um surto psicótico, ter invadido um mosteiro dizendo-se enviado de Deus. Aos poucos que ele permitia entrar em seu “castelo”, como chamava sua cela-ateliê, apresentava suas assemblages (colagens com objetos tridimensionais, como embalagens de plástico, garrafas e outros resíduos descartados nos arredores da colônia), estandartes e roupas feitos com a linha de uniformes, bordados com palavras, nomes e textos de conteúdo místico. Um desses escritos – “Que venham as virgens em cardumes” – e a pergunta-senha de Bispo dão título à exposição Das virgens em cardumes e da cor das auras, reunião de 60 trabalhos do artista aberta para visitação até 2017 no Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, que funciona em um dos prédios da colônia. 

Além das obras de Bispo – dentre as quais se destacam oito estandartes que foram exibidos juntos pela última vez há mais de 30 anos –, a exposição traz instalações e apresentação de performances de artistas contemporâneos que de alguma forma se relacionam com Bispo. A performance que abriu a mostra em junho, de Eleonora Fabião, consistiu num cortejo pelas dependências da colônia, levando trabalhos emblemáticos de Bispo numa caixa de acrílico: começou com o Manto da apresentação – uma mortalha que ele bordou ao longo da vida para, dizia, vestir quando encontrasse Deus no juízo final –, e terminou com o fardão Eu vim, que traz bordada a data que ele considerava seu verdadeiro nascimento: hora, dia e ano do surto psicótico que resultaria em sua internação, em 1938. Dentre as instalações, destaca-se o Materializador de sonhos, de Nadam Guerra: dezenas de placas de cerâmica que retratam sonhos contados ao artista. 

De acordo com a curadoria, a arte performática dialoga diretamente com a obra de Bispo – ele, em si, um performer que circulava pela colônia usando suas próprias produções. Esse aspecto é evidenciado pelas fotos feitas pelo fotógrafo francês Jean Manzon em um ensaio com Bispo para a revista O Cruzeiro nos anos 40, que estão sendo expostas pela primeira vez. As performances ocorrerão no último sábado de cada mês e serão filmadas e exibidas nos demais dias. Os materiais usados nas apresentações, em vez de descartados, serão acumulados até o último dia da exposição – uma referência clara ao trabalho de Bispo, que utilizava o lixo como matéria-prima para, segundo afirmava, representar “o material existente na Terra de uso do homem”. Os cenários das performances serão as galerias do museu, dependências do antigo hospital psiquiátrico e áreas externas da colônia, hoje tombada pelo Patrimônio Histórico. A curadoria criou um mapa com as áreas da colônia que podem ser visitadas para conhecer melhor o lugar onde viveu Bispo, caso o espectador queira explorar os prédios de forma independente ou por visita guiada. 

Das virgens em cardumes e da cor das auras.
Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea.
Colônia Juliano Moreira. Estrada Rodrigues Caldas, 3400, Taquara, Jacarepaguá, Rio de Janeiro.
De terça a sábado, das 10h às 17h. Informações: (21) 3432-2402. Grátis. Aos sábados, há ônibus direto do Museu de Arte Moderna (MAM) até a colônia, por R$ 20. Até janeiro de 2017.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de julho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/29SXuYj  

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