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Um pedra sobre o passado

No filme "Entre Nós", amigos releem cartas enterradas por dez anos e se deparam com a saudade do que eram antes

abril de 2014
Fernanda Teixeira Ribeiro
Divulgação
O que você esperava da vida aos 25 anos? Ou, caso ainda não tenha chegado a essa idade, quais suas expectativas para daqui dez anos? No filme Entre nós sete amigos, vários deles com aspiração de se tornarem escritores, registram seus sentimentos em relação ao futuro em pedaços de papel e os enterram numa caixa.

Marcam o lugar com uma pedra e combinam que vão desenterrar e reler as cartas exatamente uma década depois, ao se reunirem novamente no lugar – uma casa de campo isolada, onde mantêm conversas sobre literatura e sobre a vida, animadas pelo álcool e pela maconha. Os sorrisos e as promessas de amizade eterna são exagerados, a responsabilidade é pouca. Embriagados, dois deles saem de carro para comprar mais bebida e o desfecho é previsível: o motorista perde o controle do veículo e um deles morre, segundos depois de confidenciar ao amigo que havia concluído seu primeiro livro.

Na sequência o motorista, Felipe, surge mais velho. O rosto do ator Caio Blat é filmado mais de perto e o espectador pode ver algumas rugas de expressão, o que sugere a passagem do tempo. Junto com sua mulher, Lúcia (interpretada por Carolina Dieckman) – uma das amigas, com quem acabou se casando –, sobe novamente as escadas da mesma casa de campo. Pouco a pouco o antigo grupo se reúne, agora apenas seis. Cumprimentam-se, fazem perguntas pouco interessadas sobre o emprego e sobre a família uns dos outros. O constrangimento prevalece e a tragédia que aconteceu há dez anos não é evocada por nenhum deles, mas a memória do morto parece onipresente.
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O contraste é claro. Os piqueniques regados a cerveja do início do filme dão agora lugar a um jantar com pratos elaborados e vinho. Sinal da maturidade. Casais que antes trocavam carícias o tempo todo hoje mal se tocam e discutem por causa do ponto do assado ou tempero da salada. Lúcia, aliás, namorava na época um dos outros rapazes ali reunidos, o que parece deixá-la em um mal-­estar constante. A conversa inevitavelmente ruma para a vida profissional.

Nesse aspecto, Felipe é considerado o mais bem-sucedido, pois foi o único que de fato seguiu a carreira de escritor. Seu maior sucesso ainda é seu primeiro livro, publicado pouco depois do acidente, que contém passagens nitidamente inspiradas na temporada no campo, como as cartas enterradas. O conflito surge quando um dos amigos, Casé, crítico de literatura de um jornal, afirma que a qualidade dos romances de Felipe deixa a desejar e que o sucesso do primeiro trabalho não se repetiu mais – é a primeira insinuação sobre um segredo que atormenta o protagonista desde a tragédia.

O consumo de álcool aumenta e o sentimento de cumplicidade parece retornar aos poucos. É inevitável a comparação com a juventude. Buscam manter as mesmas brincadeiras, ouvir as mesmas músicas, mas na verdade ninguém está realmente se divertindo: um é para o outro a dolorosa revelação de sonhos que não se realizaram ou que simplesmente deixaram de fazer sentido. Silvana, dona da casa, relembra do livro que o morto estava prestes a terminar e sugere tentarem encontrá-lo e editá-lo, o que deixa Felipe ansioso. Sua mulher desconfia de seu comportamento e começa a duvidar da autoria do primeiro livro do marido. Ele não confirma a suspeita, mas deixa a entender que tem algo a revelar no dia da abertura das cartas.

Chega o momento em que a pedra é finalmente removida e têm acesso ao passado. Muitas das cartas estão deterioradas pelo tempo. Algumas poucas estão íntegras e uma delas é a do morto. As linhas lidas coincidem com o final do romance do protagonista, mas apenas Silvana e Lúcia percebem – “Que puta saudade do que nós somos”, sentencia a carta, mergulhando todos num silêncio pensativo. Felipe havia tomado para si não apenas a obra, mas a vivência do amigo. Qual a pena por roubar um passado?

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