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Um pingüim estilhaçado

outubro de 2008
Gláucia Leal
JUTA BAUER
Se os adultos tivessem idéia mais clara de como é assustador para uma criança ouvir críticas destrutivas, carregadas de raiva – às vezes aos gritos – das pessoas que amam, talvez fossem mais cuidadosos em suas broncas. Enfurecidas – como a pingüim do livro Mamãe zangada, da autora e ilustradora alemã Jutta Bauer, recém-lançado pela Cosac Naify – algumas vezes as pessoas exageram. E os pequenos se magoam. O problema é que, ao enfrentar acessos de fúria (em geral dos pais), algumas crianças podem se estilhaçar psiquicamente e os adultos nem sempre percebem.

Hoje de manhã mamãe gritou tanto que eu me despedacei em pleno ar”, conta o pingüinzinho do livro. Depois disso, ele já não podia gritar porque seu bico se perdeu nas montanhas; nem voar, pois as asas foram parar na selva; também não conseguia procurar a si mesmo porque os olhos estavam tão longe quanto as estrelas. Estava perdido, impotente e sem direção. A mãe, porém, ao se dar conta da dor que causou, vai aos confins do planeta, recolhe o filhote aos pedaços - e pede desculpas. Afinal, é preciso reparar estragos, unir o que se perdeu e costurar o que se rasgou.

Como um pequeno paciente comentou há alguns dias, durante uma sessão de psicoterapia: “Gente grande esquece que também é difícil ser pequeno”. O livro de Jutta Bauer nos ajuda a lembrar.