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Um pouco de pimenta, sal, amor e mel

Atilla Marcel, dirigido por Sylvain Chomet, apresenta a história de Paul, que após a morte trágica dos pais, deixa de falar

 

março de 2015
Júlia Catani
Divulgação

Os sons, a música, os discos, os pianos, os silêncios. O tempo, a memória, as lembranças. O trauma. Essas presenças são marcantes em Atilla Marcel, de Sylvain Chomet. O filme narra de modo delicado e envolvente a dolorosa história de Paul, um homem de 33 anos que deixou de falar ao perder os pais, aos dois anos. As tias que o criam tentam evitar que sofra com qualquer emoção. Com isso, impedem que tenha uma vida independente e o obrigam a “prestar contas” de todos os seus passos. Com um controle excessivo, selecionam os relatos referentes aos pais de Paul, já que ele pouco se recorda do acidente e do que aconteceu antes em sua vida. Mesmo assim, as lembranças retornam a partir de seu contato com uma vizinha.

As cenas se desenrolam de forma bem-humorada e em meio a danças e músicas o espectador as acompanha quase como se estivesse num mundo onírico. São abundantes as referências explícitas ou veladas aos sentidos literários e psicanalíticos que podem ajudar a compreender as experiências vividas pelo personagem principal.

A trajetória de Paul está cindida pelo trauma da morte inusitada e violenta dos pais. Os deslocamentos temporais na constituição do relato do filme são múltiplos e organizam-se para mostrar a força do evento traumático, a dor silenciada, a solidão e a agitação em meio às quais se revelam lembranças que ordenam a história de Paul.

Vale a pena retomar a experiência dolorosa vivida pelo personagem, assim como as funções desempenhadas pelas tias e pela vizinha na vida de Paul, recorrendo a elementos da teoria do trauma presentes na obra de Freud e as noções de relaxamento e regressão nos escritos de Sándor Ferenczi. O conceito de trauma oscila muito no decorrer dos textos freudianos. Para o criador da psicanálise, o trauma se caracteriza como um evento experimentado pelo sujeito como risco de vida, trata-se de uma ameaça radical. Isso é o que, aos poucos, o espectador descobre ter ocorrido com o protagonista – um acontecimento tão intenso que o impediu de assimilar o que fora vivido. Mas é justamente essa impossibilidade de compreensão e inscrição que permite o desenvolvimento do trabalho analítico. Embora Paul não tenha ido procurar um psicanalista, ele depara com a vizinha. A mulher oferece aos seus clientes chás alucinógenos que lhes permitem recuperar lembranças esquecidas. Na saga de Paul (em busca de “seu” tempo perdido) será preciso rever diversas vezes, por meio das lembranças, o homem que “escreve” e ordena a sua vida: o pai, Attila Marcel (um lutador). Quem o auxilia recebe o nome de sra. Proust e irá conduzi-lo de modo figurado (com chás e bolinhos) à superação da dor. Ela possibilita algo que parece estar próximo do que Freud nomeou de diminuição da censura e descarga de afetos. É viável imaginar que se a vizinha assume o papel de analista e ajuda Paul a paulatinamente recuperar sua memória, as tias tiranas desempenham a função de afastar os aspectos dolorosos de sua consciência para evitar que o sobrinho sofra ainda mais. Em termos psicanalíticos, a obstrução de elementos traumáticos pode ser reconhecida como censura e recalque, um mecanismo de defesa que bloqueia qualquer tipo de situação capaz de provocar angústia e desconforto.

De todo modo, assim como em um tratamento psicanalítico, o acesso às lembranças não foi feito de modo abrupto. Respeitou-se o tempo do sujeito para que ele tivesse condições de assimilar e recordar ou construir lembranças antes impossíveis. A sra. Proust parece considerar esse tempo ao atender Paul e oferecer chás com bolinhos, as madeleines, como ela mesma os nomeia, dizendo que as guloseimas devem neutralizar o gosto amargo do chá.

Nos textos Elasticidade da técnica psicanalítica (1928) Princípio de relaxamento e neocatarse (1930), Ferenczi introduz na psicanálise algumas transformações na condução do trabalho analítico e, dentre elas, um alargamento da técnica, que permite a confiança no analista e o relaxamento que induz quase um estado de transe, dada a intensidade da regressão, para produzir recordações antes inacessíveis. Ele acredita que, assim, o paciente seja capaz de falar mais livremente e entrar em contato com as lembranças e os conflitos mais dolorosos. Ao que parece, foi o que se passou na relação de Paul com a sua vizinha: ele pode confiar nela e, com isso, entrar em contato com recordações antes intoleráveis. A partir desta aproximação ele reconcilia-se com a lembrança de um pai diferente do de antes, recordando-se de seu amor e carinho – e não do ódio e agressividade como havia imaginado e fantasiado durante muito tempo. Lembranças de luta e do pai “espancando” a mãe são substituídas por brincadeiras entre o casal. Na luta, a mãe aparece em atitudes brincalhonas e sedutoras que atraem fisicamente o pai. A mãe também canta suavemente para Paul uma popular canção belga: “Um pouco de pimenta, um pouco de sal, um pouco de amor, um pouco de mel...”. Aos poucos, ele consegue ressignificar o trauma.

O piano que cai da sala do apartamento do andar superior, justamente sobre os corpos dos pais. Morte. Silêncio. Espanto. Até produzir as lembranças, havia congelamento, paralisia, exatamente o que caracteriza o processo traumático, um retorno a um estado anterior que demora a ser abandonado e, de certo modo, faz reviver o acidente de maneira constante. Como lembra a psicanalista Myriam Uchitel, em Neurose traumática (Casa do Psicólogo, 2011) “para o trauma não há passado, só presente”. Parece que Paul experimentou o evento traumático por muito tempo, o que impediu a sua inscrição na história pessoal e fez com que as suas energias ficassem presas à etapa anterior. Dentre os sintomas, a falta da comunicação oral remete Paul ao período anterior ao acidente, aos dois anos, quando a criança ainda está adquirindo a linguagem. Aos que se interessam pelas dores, dificuldades e possibilidades de reconstrução psíquica, pelas potencialidades da escuta e do acolhimento, o filme oferece rico material para reflexão. Paul fala e ensina muito, ainda que diga apenas uma única palavra.

Júlia Catani é psicanalista, mestre em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Especialista em psicopatologia e psicologia hospitalar, trabalha no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) no Ambulatório de Transtornos Somatoformes do Instituto de Psiquiatria.

ATTILA MARCEL
102 min – França, 2014.
Direção: Sylvain Chomet
Elenco: Bernadette Lafont, Guillaume Gouix, Hélène Vicent, Anne Le Ny, Elsa Davoine, Fanny Touron, Jean-Paul Solal, Kea Kaing, Luis Rego, Vincent Deniard

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