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Um substituto para o culpado

Retaliação contra alguém considerado semelhante ao agressor traz a sensação de justiça

abril de 2015
Adam Hadhazy
SHUTTERSTOCK

Um enredo comum no cinema e na literatura: herói que sofreu uma injustiça consegue a punição do inimigo – com a torcida do espectador. Na vida real, porém, a reparação nem sempre é tão simples. Pessoas prejudicadas em geral não sabem quem lhes causou dano – ou não podem ter acesso ao agressor. Diante disso, surge um fenômeno que os cientistas chamam de vingança deslocada: nesse caso, o indivíduo que se sente lesado pune alguém que ele considera pertencente a um mesmo grupo que o agressor original. 

Pesquisadores da Universidade Philipp de Marburgo, na Alemanha, investigaram a entitatividade, um conceito que se refere à percepção do grupo como um todo, e não como um aglomerado de gente. Exemplo: uma multidão aleatória no ponto de ônibus apresenta pouco dessa característica. Já pessoas unidas por uma causa comum que se esforçam para atingir os mesmos objetivos são muito entitativas.

Os autores da pesquisa realizaram uma série de experimentos nos quais compararam a vingança deslocada contra pessoas com baixa e alta entitatividade. Em um deles, os voluntários, universitários no início da vida adulta, deveriam recordar-se de um momento em que acreditavam ter sido injustiçados e, então, imaginar como se sentiriam se tivessem a chance de punir seus agressores. Outro experimento avaliou como vítimas reais se sentiriam ao deslocar sua vingança para pessoas inocentes. Para simularem essa situação, os pesquisadores informaram (falsamente) os participantes de que seus parceiros num teste de quebra-cabeça decidiram não compartilhar o prêmio. Antes de iniciarem a atividade, os estudantes haviam assistido a um vídeo em que seu par (mais tarde seu rival) tinha conversado com outros dois voluntários que estavam vestidos de forma semelhante ao parceiro traidor. Os participantes do experimento que se sentiram lesados poderiam optar por não reagir ou pedir justiça, determinando que, como punição, os membros do mesmo grupo do infrator fossem obrigados a assistir a imagens desagradáveis.

Em todas as experiências, os que se vingaram relataram mais sentimentos de satisfação e justiça contra o grupo que identificavam como o da pessoa que os havia prejudicado. “Esse trabalho ilustra, por exemplo, como a vingança deslocada pode alimentar guerras de gangues étnicas”, diz o psicólogo Arne Sjöström, coautor do estudo. O artigo sugere também como os ciclos de retaliação podem ser interrompidos. “Uma estratégia interessante seria incentivar as pessoas a transitar por vários grupos e, dessa forma, ampliar perspectivas”, acredita Sjöström.


Leia o texto completo: "Efeito manada", da edição de abril de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8


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