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Uma pedra no caminho do amor

Sob a óptica de mulheres, tanto na direção quanto no roteiro, filme trata de facetas atualmente não óbvias do feminino, mas bastante presentes no universo das relações contemporâneas

agosto de 2017
Nayra Cesaro Penha Ganhito
DIVULGAÇÃO

Um instante de amor, ambientado no interior da França dos anos 50, recorre a uma estratégia desconcertante para abordar o desejo feminino. Acompanhamos na tela a narrativa clássica, o belo desempenho de Marion Cotillard e a fotografia cuidadosa, mas as luzes se acendem e estranhamos seu aparente anacronismo: o que levou a diretora a filmar essa história em pleno século 21? O “drama de época” seria um convite à reflexão a respeito do que mudou para as mulheres após décadas de emancipação? A liberação sexual e o acesso ao mundo do trabalho teriam nos protegido das demandas de nosso próprio desejo? A história de Gabrielle se apresenta também como história clínica. A premente necessidade de amar – e ser amada pelos homens – é desorganizadora tanto para a personagem quanto para o meio familiar e social provinciano no qual ela vive. Sua alma dramática, o erotismo exacerbado sem vias de satisfação, a atração pelo impossível e suas misteriosas dores remetem à noção de histeria na teorização freudiana sobre o feminino. A jovem não escapa da intervenção médico-psiquiátrica: “Ela tem estas cãibras”, diz sua mãe ao médico. “Mas com ela nunca sabemos se é de verdade ou se é fingimento.” O nome original do filme é Mal de pierres, numa alusão a pedras(ou cálculos) renais. A mãe, que mantém a moça sob estreita vigilância, impõe a ela a escolha entre a internação num sanatório e o casamento com um pedreiro, o calado José, que surpreenderá quem assiste ao filme. Gabrielle escolhe o casamento, mas declara que não tem amor pelo rapaz e não fará sexo com ele. 

A jovem ama a palavra escrita. Lê e escreve com avidez, como forma de expressão e escoamento de suas angústias, sobretudo em cartas de amor carregadas de erotismo. Escrita bruta, urgente, sem outro escopo senão o endereçamento das exigências de sua paixão. Apesar de bela, sua escrita não chega a ser uma saída sublimatória, nem oferece para Gabrielle uma aspiração ao ofício de escritora. A personagem continua à espreita daquilo que não acredita encontrar na relação com o marido. Entretanto, engravida dele e sofre um aborto; uma crise renal diagnosticada nesse contexto a leva à internaçãonuma clínica de águas termais na Suíça, na melhor tradição da época. 

É onde encontrará, finalmente, seu instante de amor: a realização plena, amorosa e sexual na figura de um tenente amante da música e da literatura. Embora seduzido pela jovem, trata-se de um homem impotente em face da doença e da morte anunciada. O ardente desejo da jovem fará desse limite o objeto de uma verdadeira recusa (um mecanismo de defesa radical descrito por Freud que retira de um fato ou representação seu significado, a fim de evitar seu efeito potencialmente traumático; para isso, toda a parte da realidade ligada ao elemento desagradável é recusada também). 

Essa experiência ressignifica toda a trama a posteriori: nem tudo é o que parece e a cura virá de onde menos se espera, embora ainda sob a égide do amor e da maternidade, como na resolução clássica da feminilidade preconizada por Freud, hoje questionada. 

Podemos especular a respeito das Gabrielles de nosso tempo. A abolição da noção de neurose dos compêndios psiquiátricos pode ter mitigado estigmas ligados à histeria, desde a Antiguidade ligada às mulheres e aofeminino (hysterus = útero) e fonte de equívocos e preconceitos. Mas o mal-estar sobrevive, separado da sexualidade, disperso nos diagnósticos de transtorno dissociativo, de humor ou compulsivo agora despidos de seu fundo conflituoso. Os médicos do filme são homens – um responde às demandas da mãe de domar e adequar o comportamento da filha; o segundo afirma secamente: “Não nos interessamos por sua vida privada”. A paixão da protagonista, medicalizada, talvez não fosse escutada hoje mais do que foi no sanatório. 

Diz-se que a histeria como “feminismo espontâneo” é a neurose mais plástica em sua apresentação, uma vez que responde diretamente às imposições culturais. É possível que sua expressão assuma hoje novas roupagens – na depressão, no pânico, na anorexia ou apenas nas repetitivas histórias tumultuadas de amores insatisfatórios. As saídas sublimatórias no mundo do pensamento e do trabalho poderiam erotizar outros campos da existência, oferecendo certa satisfação pulsional. Talvez não adoecesse de amor, sendo a sexualidade menos proibida e já não circunscrita às relações monogâmicas. 

Entretanto, os mistérios do amor e do desejo persistem numa era que se quer pragmática e libertária, e com eles os impasses nos encontros. Em vez da repressão, lidamos com imperativos de gozo; idealizações do amor romântico coexistem com as relacionadas à experimentação e à liberdade; o sexo não resolve as vicissitudes da escolha do objeto amoroso e o tipo de relação estabelecida com ele. Restos transgeracionais de séculos de patriarcado garantem não apenas que Gabrielles ainda estão por aí, mas que todas nós somos um pouco Gabrielle. Nesse filme, mãos femininas na direção e no roteiro permitem que o drama de época transponha o tempo, reconhecendo na mulher – tantas vezes retratada pelo olhar masculino – sua condição de sujeito. A mesma que possibilitaria uma aventura psicanalítica capaz de escutar a feminilidade em seus determinantes contemporâneos. 

UM INSTANTE DE AMOR. 120 min – França, 2016 Direção: Nicole Garcia Elenco: Marion Cotillard, Louis Garrel, Alex Brendemül.

NAYRA CESARO PENHA GANHITO é psiquiatra e psicanalista, professora do curso de psicopatologia psicanalítica na clínica contemporânea (módulo sono-sonhos), do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. 

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