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Várias formas de ser família

Livro infantil traz personagens com diferentes contextos familiares e oferece aos adultos a oportunidade de falar com as crianças sobre que realmente importa na construção desse tipo singular de relacionamento

fevereiro de 2014
Gláucia Leal
Divulgação
Ana e Davi moram às vezes com o pai, às vezes com a mãe. Os dois são filhos de Mário e Teresa. Mário se casou de novo e a mulher dele, Cláudia, tem uma filha, Helena, que agora é enteada de Mário e passa parte da semana na casa de Gilberto, pai biológico da menina. Davi e Ana têm um meio-irmão, ainda bebê, que se chama Zé, filho de Teresa e seu novo namorado, Diego. Ele era casado com Gabi e também tem uma filha, Nara, que passa alguns fins de semana com o Diego, Teresa, Zé, Davi e Ana (quando os dois irmãos não estão com o pai e Cláudia, claro).

Complicado? Um pouco, pelo menos na teoria. Na prática, desde que as novas configurações familiares se tornaram cada vez mais comuns, nos últimos anos, e começaram a fazer parte do dia a dia, felizmente, causam cada vez menos reações de estranhamento, principalmente nos grandes centros. O que há algumas décadas seria um escândalo tem sido visto com mais tranquilidade, e figuras como “a namorada (ou a nova mulher) do pai (ou da mãe) e os filhos dela”, por exemplo, passaram a fazer parte da vida de boa parte das crianças.

É desse universo íntimo diversificado que trata É tudo família, de Alexandra Maxeiner e Anke Kuhl, recém-lançado no Brasil pela L&PM. O livro aborda as várias composições, como ter irmão ou ser filho único, ter pais separados que não têm um bom relacionamento, ter pais separados que mantêm amizade, ser adotado, ter duas mães ou dois pais. Cada uma dessas situações é específica, faz parte da vida, deixa marcas – e, na maioria das vezes, isso não é bom ou ruim por si só, depende muito de como cada experiência é vivida.

Também há casas onde avós e tios desempenham as funções materna ou paterna; casos em que houve morte de um dos pais, o que costuma ser muito doloroso e deixar as crianças não apenas tristes, mas com raiva por se sentirem abandonadas. Há até mesmo as famílias sem filhos ­– das quais fazem parte cônjuges, sobrinhos, primos, etc. E muitas pessoas “escolhem” os parentes que querem ter e passam a considerar amigos e os animais de estimação como membros da família.

Além dos formatos diversos, há ainda os “jeitos” próprios e até os cheiros que caracterizam determinados grupos familiares. Na verdade, é uma composição de odores que se tornam únicos. Também podemos pensar que, para além das características de cada um de seus integrantes, cada família tem uma espécie de personalidade – com dinâmicas, valores, prioridades, traços e crenças acerca da vida, maneiras particulares de se relacionar. Algumas desenvolvem até mesmo linguagens que incluem gestos próprios e palavras “inventadas”.

Em meio a tantos formatos e variações, o livro oferece aos adultos a oportunidade de falar com as crianças sobre o que realmente importa na construção do tecido familiar – essa “cola” chamada afeto que permite a cada um se constituir como sujeito por meio do olhar daqueles com quem convive. Afinal, somos quem somos porque o outro é quem é, com suas arestas, diferenças, esquisitices e também seus encantos. A subjetividade, combinada à possibilidade de encontro, desperta o sentido de pertencimento, que ultrapassa os laços de sangue e nos permite inventar maneiras mais confortáveis de “fazer parte”.

É tudo família. Alexandra Maxeiner e Anke Kuhl. L&PM, 2013. 32 págs. R$ 35,00.