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Veneno de inseto vira analgésico

agosto de 2007
Universidade de Washington
Pesquisa brasileira publicada no British Journal of Pharmacology destaca que substância extraída do veneno de marimbondo-estrela é até três vezes mais eficaz do que a morfina no controle da dor
(Agência Fapesp) – Pesquisadores do departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da Universidade de São Paulo, identificaram no veneno de uma vespa, popularmente conhecida como marimbondo-estrela (Polybia occidentalis), uma substância que, em testes laboratoriais, mostrou-se de duas a três vezes mais eficaz do que a morfina no controle da dor.

A responsável pelo efeito é uma cinina, substância derivada da Treonina-6 Bradicinina (T6Bk), peptídeo amplamente conhecido na literatura científica. A cinina foi identificada durante os trabalhos de rotina dos cientistas no Laboratório de Neurobiologia e Peçonhas, que se concentram na prospecção – no veneno de diferentes espécies de aranhas e vespas – de drogas neuroprotetoras e anticonvulsivantes, isto é, capazes de inibir crises convulsivas.

O estudo da cinina teve início há cerca de três anos com a tese de doutorado de Márcia Renata Mortari. “O elevado potencial da substância frente à morfina foi comprovado em experimentos em que a cinina foi injetada no cérebro de ratos com dor induzida por meio de hipertermia, modelo que utiliza altas temperaturas”, disse o coordenador do estudo e orientador da tese, Wagner Ferreira do Santos.

Foram utilizados dois modelos tradicionais para o estudo da dor, o hotplate (placa quente) e o tailflick (teste de retirada da cauda). Os animais foram inseridos nesses dois testes para a verificação de resistência à dor causada pelo aumento da temperatura.
No hotplate, o animal foi induzido a sair da placa. Quando as duas drogas foram aplicadas, eles ficaram mais tempo ali, mesmo com a noção de que deveriam sair. No tailflick, a cauda foi inserida em um pequeno filamento bem aquecido.

“Nesse caso, se o animal não retirar a cauda em dois ou três segundos o aparelho desliga, uma vez que a intenção não é machucá-lo”, explicou o professor da FFCLRP, que também é presidente da comissão de ética em experimentação animal do campus da USP em Ribeirão Preto.

“Para que a dor cessasse nos dois modelos, tivemos que usar de duas a três doses adicionais de morfina para ter exatamente o mesmo efeito encontrado com uma única dose de cinina. Esse efeito é identificado pelo tempo de permanência do animal nas duas plataformas”, disse Ferreira dos Santos.

O estudo foi publicado em maio em artigo no British Journal of Pharmacology, com elogios no editorial da revista inglesa, escrito por Istvan Nagy, chefe do Departamento de Anestesiologia do Centro de Cuidados Intensivos de Medicina da Dor do Imperial College de Londres, e Charles Paule e John White, pesquisadores do mesmo departamento, além de Laszlo Urban, diretor do Lead Discovery Center, um centro de testes pré-clínicos na Universidade de Cambridge, nos Estados Unidos.
“Como os mecanismos que causam a dor têm forte relação com os circuitos cerebrais, outra novidade do estudo foi a identificação de uma nova via, um novo espaço, para o controle da dor utilizando cininas. A substância se mostrou atuante em um sistema do cérebro conhecido como calicreína-cinina, que é responsável por várias patologias cerebrais, como a formação de edemas, por exemplo”, disse Ferreira dos Santos.

Segundo ele, com o estudo da estrutura molecular da cinina, o próximo passo será a exploração da substância de maneira sintética, visando ao estudo de novos sistemas de controle da dor no cérebro e a possível criação, após outros testes com modelos animais e com seres humanos, de medicamento analgésico em parceria com empresas privadas.

Além de Ferreira do Santos e de Márcia Renata, integram o grupo responsável pelo estudo os professores Norberto Peporini Lopes, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Joaquim Coutinho-Netto e Norberto Coimbra, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, e Antônio Miranda, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).