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Ver e sentir coisas que não existem

Com o tema mundo em constante transformação, a 31ª bienal de São Paulo destaca a influência da moral religiosa em questões político-sociais, como condenação do aborto e resistência em aceitar a diversidade sexual

outubro de 2014
Divulgação

Na fileira superior, pinturas de Ocaña: Sagrado Coração de Maricas e Imaculada dos pênis. Abaixo, Obrigada à Virgenzinha de Guadalupe, trabalho do mexicano Nahum Zenil para o projeto Deus é bicha: mistura de iconografia cristã e material pornográfico.

A divulgação das imagens das obras da 31a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, a tradicional mostra contemporânea que ocupa um dos pavilhões do Parque Ibirapuera a cada dois anos, causou furor em muitos usuários das redes sociais – pinturas de Deus afeminado e um documentário sobre um homem com a dupla personalidade de pastor evangélico e travesti candomblecista foram algumas das obras vistas com estranhamento. Com o mote “Como (...) coisas que não existem”, a exposição reuniu dezenas de trabalhos que provocam o espectador a preencher os parênteses com um verbo que exprima sua reação diante das instalações, esculturas, pinturas e vídeos. Ver, tocar, rejeitar e outras inúmeras possibilidades: qual seria seu verbo diante, por exemplo, do projeto Deus é bicha? Misto de iconografia cristã, cultura popular e material pornográfico, a reunião de pinturas e desenhos de artistas europeus e latino-americanos encena episódios de tortura, crucificação e morte, bem como de prazer, erotismo e êxtase.

A relação entre sexualidade e religião é recorrente na mostra. Outro trabalho que chama atenção é o vídeo Sergio e Simone, da brasileira Virgínia Medeiros. Filmada em Salvador, a película acompanha a transformação da travesti Simone, seguidora do candomblé, no pastor evangélico Sergio. A mudança aconteceu depois de uma alucinação induzida por uma overdose de crack, na qual Sergio acredita ter sido incumbido de uma missão religiosa ao lado de Jesus. As cenas captadas ao longo de quase dez anos documentam a complexidade desse constante processo de transformação corporal e espiritual – anos depois de assumir a religião evangélica, o pastor tem uma “recaída” no candomblé, decidindo, assim, assumir as duas identidades. O espectador é desafiado a configurar formas de ser e estar inexistentes em uma sociedade binarista, que exige que sejamos uma coisa ou outra. 

A maioria dos países latino-americanos continua a tratar o aborto como uma questão moral ou religiosa, e não como um problema de saúde pública. Legislações defasadas forçam milhares de mulheres a buscar interrupções de gravidez clandestinas, que não raro deixam profundas marcas físicas e emocionais. A instalação Espaço para abortar, do coletivo boliviano Mujeres Creando, é um dos destaques da bienal. Numa espécie de representação do corpo feminino exposto a agressões e intervenções da uma cultura machista, um véu com a inscrição útero fica à disposição dos visitantes, que podem entrar e sair à vontade. “As coisas que não existem” são as ferramentas necessárias para modificar formas de pensar que parecem insuperáveis. Como preencher as reticências nesse caso? “Lutar por” e “aprender com” são algumas reflexões.

A maioria dos países latino-americanos continua a tratar o aborto como uma questão moral ou religiosa, e não como um problema de saúde pública. Legislações defasadas forçam milhares de mulheres a buscar interrupções de gravidez clandestinas, que não raro deixam profundas marcas físicas e emocionais. A instalação Espaço para abortar, do coletivo boliviano Mujeres Creando, é um dos destaques da bienal. Numa espécie de representação do corpo feminino exposto a agressões e intervenções da uma cultura machista, um véu com a inscrição útero fica à disposição dos visitantes, que podem entrar e sair à vontade. “As coisas que não existem” são as ferramentas necessárias para modificar formas de pensar que parecem insuperáveis. Como preencher as reticências nesse caso? “Lutar por” e “aprender com” são algumas reflexões.

Como (...) coisas que não existem – 31a Bienal de São Paulo. Fundação Bienal de São Paulo. Pavilhão Cicillo Matarazzo, Parque Ibirapuera, portão 3. São Paulo. Terça, quinta, sexta, domingo e feriados, das 9h às 19h (entrada até 18h). Quarta e sábado, das 9h às 22h (entrada até 21h). Fechado às segundas. Informações: (11) 5576-7600. Grátis. Até 7 de dezembro. 

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