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Vida de sacerdote

Segundo dissertação defendida no Instituto de Psicologia da USP, formação do clero brasileiro é autoritária e focada nos ritos de passagem, com pouca reflexão sobre a teologia

dezembro de 2007
Agência USP
(Agência USP de Notícias) − Os ritos de passagem e a estrutura de enclausuramento de um seminário são fatores que influenciam tanto ou mais na formação de um sacerdote, autoritária e restrita às questões da Igreja, do que a teologia ensinada na sala de aula. O psicólogo Sílvio José Benelli acompanhou durante quatro anos a vida de seminaristas em teologia, por meio de entrevistas e revisão de literatura e com ênfase na análise institucional, para analisar a formação clerical no Brasil.

Benelli foi professor em um seminário de filosofia e, devido a sua formação, pensou que seria interessante desenvolver um trabalho de pesquisa na dinâmica da instituição, a fim de explorar “questões que influíam nas práticas formativas dos seminaristas”, o que resultou em uma dissertação de mestrado. Em seu doutorado, apresentado no Instituto de Psicologia (IP) da USP, resolveu trabalhar com um seminário de teologia.

Durante três anos o psicólogo freqüentou semanalmente a instituição que fica no estado de São Paulo, mas cujo nome não é revelado no estudo. Lá, entrevistou 16 teólogos e quatro padres. Benelli afirma que resolveu mesclar o estudo teórico com a pesquisa de campo “para notar coisas que não são abordadas no discurso formal e formular novas questões a partir das observações”. O foco da tese foi a observação dos diáconos, hierarquia da Igreja Católica que antecede à do padre.
Formação
O estudo classifica a formação do clero no Brasil como “um domínio flutuante de uma série de saberes, tais como filosofia, teologia e psicologia” e indica desconexão entre a literatura e a documentação referente à formação e o dia-a-dia dos seminários. “Não se vê uma teologia da vocação ou da espiritualidade, a formação é muito improvisada”, afirma Benelli. Como fragilidades adicionais, o pesquisador aponta as limitações econômicas e a pouca influência das correntes teológicas.

Os ritos de passagem, pouco citados na literatura, no entanto, têm papel preponderante na formação eclesiástica. São quatro: o rito de admissão oficial como seminarista diocesano, no qual o bispo dá o “aval” ao seminarista; o rito de instituição dos ministérios do eleitor e do acólito; o rito de ordenação diaconal; e o rito de ordenação sacerdotal. “O último adquire maior importância fora dos muros do seminário, mas é necessário passar pelos quatro, que conferem caráter formativo ao religioso”, explica o psicólogo.

Outro fator de forte influência na formação do seminarista é o “modo de funcionamento hegemônico asilar ou conventual”, ou seja, o enclausuramento pelo qual passam os futuros padres, em que há uma completa tutela da existência do jovem à instituição. O seminarista se sente humilhado, porque estudo, alimentação e roupa lavada são pagos pela Igreja, e isso, de maneira ou outra, é “jogado na cara” por seus superiores. “Há uma vivência grupal completa, em que colegas e padres vigiam a todos e são vigiados por todos. A vida se concentra naquele espaço, existe a instituição total”, define Benelli.

Esse ambiente, conclui o pesquisador, forma um padre muito “clericalizado, um padre dentro da Igreja, não um evangelizador, um religioso que faz uso do autoritarismo e da concentração de poder, um padre bem-alinhado com a classe média e o status quo social e eclesial, mais ‘funcionário do sagrado’ e menos ‘profeta libertador’”. Tal perfil de formação, conhecido como “a volta à grande disciplina”, cujo incentivador foi o papa João Paulo II, também é detectado em outros estudos no Brasil, América Latina e Estados Unidos, de acordo com Benelli, que cita trabalhos semelhantes em um capítulo da tese.