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Você é o que você faz?

Artista Cláudio Bueno cria sistema que enquadra pessoas por profissão e propõe ações que levam a questionar a associação entre identidade pessoal e trabalho

novembro de 2014
Divulgação

“O que você faz?”; “Em que você trabalha?” É bem possível que essas perguntas surjam logo no início de uma conversa com alguém que você acabou de conhecer. Em nossa cultura, saber qual é a profissão permite fazer inferências sobre a posição social, sobre aspectos em comum e, principalmente, sobre o valor do outro, de acordo com nossas crenças sobre sucesso e realização.

Em exposição na Mostra 3M de arte digital, no Instituto Tomie Ohtake, a obra SGPP (Sistema gerador de performances profissionais) propõe uma reflexão sobre as associações que fazemos, de forma automática, entre identidade pessoal e atuação profissional. Três baias com computadores evocam a atmosfera burocrática e de enquadramento de funções de um escritório. Em cada máquina, o visitante tem acesso ao sistema e responde a perguntas como “O que você faz?”, “Você é o que você faz?”, entre outras. O banco de dados reúne as informações cedidas pelo visitante e sugere a ele, em uma mensagem enviada por e-mail, que execute uma pequena performance criada pelo artista Cláudio Bueno. “Um advogado, por exemplo, pode ser convidado a procurar seu artigo preferido do Código Civil e depois recitá-lo no ouvido de alguém. São ações que buscam desautomatizar o corpo em seus espaços cotidianos, como no ambiente de trabalho”, explica. 

Bueno teve como provocação o trabalho Amostra (1976), de Fernando Cocchiarale, que usou verbetes relacionados a profissões para catalogar o perfil do público que comparecia e colaborava com sua obra. A ideia de catalogação é retomada pela fria sigla SGPP, que remete às classificações e enquadramentos dos sistemas digitais atuais e seus possíveis erros. 

O artista tem dois outros trabalhos expostos durante o mês de novembro na capital paulista: Corpo-circuito, com coautoria de Cristiano Rosa, que faz parte da mostra Mano fato mano, no Centro Cultural São Paulo, e The lovers, parte de Performatividade|memória, em cartaz no Paço das Artes. Na primeira, o espectador é convidado a usar um dispositivo sonoro que é ativado quando há contatos com outros corpos. A primeira apresentação da ação aconteceu em 2011 na inauguração do Sesc Bom Retiro, localizado na região central de São Paulo conhecida há alguns anos como “Cracolândia”, marcada pelos problemas sociais relacionados ao consumo de crack. Naquela ocasião, a proposta da ação foi incentivar as pessoas a tocar uma nas outras e, literalmente, criar conexões, sinalizadas pelas variações sonoras. 

The lovers propõe uma separação do casal perfeito criado pela companhia de brinquedos Mattel – Barbie e Ken. No dia da abertura, dois visitantes serão convidados a levar os bonecos e mantê-los juntos de si por cinco dias. Depois, passarão para outras pessoas, que ficarão com eles pelo mesmo período, e assim por diante. Os participantes podem postar imagens com os bonecos no Instagram, com a hashtag #thelovers.

“São padrões de beleza, de relacionamento, além de ícones da indústria de consumo. Um aspecto interessante é provocar quem participa da ação a explicar a presença do boneco a seu lado, a criar um discurso”, diz Bueno, que se inspirou na performance The lovers – The great wall walk, de Marina Abramovic e Ulay: o casal de artistas, que tinham uma relação amorosa, caminhou ao longo de semanas ao redor da Muralha da China, partindo de direções opostas e, quando se encontraram no meio do caminho, romperam e permaneceram por mais de 12 anos sem se encontrar. “Apesar da separação ficcional do casal de bonecos, The lovers produz o encontro dos participantes na cidade, na hora de realizar a passagem dos bonecos”, diz Bueno. 

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