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Você seria capaz de matar para defender seu filho?

Intrigante, filme coreano dirigido por Joon-ho Bong investiga até onde podemos chegar para proteger aqueles que amamos

março de 2010
Divulgação
Mesmo sem indicações para o Oscar, o coreano Mother é uma bela surpresa. Assisti ao filme junto com minha filha de 16 anos, que me perguntou se eu faria por ela o que aquela mãe fez pelo filho. Que mãe (bípede, bem entendido) não faria? "Você mataria?", ela me perguntou com indisfarçável curiosidade muito mais que intelectual. Claro! A propósito, cada vez mais me convenço de que não existe nenhuma afirmação que seja totalmente verdadeira ou totalmente falsa. Nem "Não matarás!".

O diretor e roteirista desse filme intrigante é o talentoso Joon-ho Bong, e a atriz, a estupenda Kim Hye. A forma como a história é contada faz a plateia prender a respiração. Logo no início a mulher com cara de louca surge no meio de uma plantação e começa a dançar (a música, falando nisso, é espetacular): é evidente que ela vai aprontar alguma (se já não aprontou). Dito e feito: não só ela como também e principalmente quem escreveu esse roteiro extraordinário está a fim de aprontar pra cima de nós, espectadores. Nem vou dizer o que acontece para não estragar a surpresa... e o suspense.

Um garoto tenta se lembrar, com massagens nas têmporas e olhar desarvorado, do que teria acontecido na noite do crime. Quando se recorda, respiramos aliviados: finalmente a história vai se esclarecer. Mas não! Ele se lembra de algo pior! A coisa se complica e nesses avanços e recuos quem conta a história brinca com os nervos do espectador – e com seus princípios e certezas, que vão todos para a lata de lixo. Aquilo tudo era amor de mãe? Seria essa a razão de seu comportamento extremado em relação ao filho? O roteirista-diretor parece dizer o tempo todo: "Se você, espectador, mãe, pai, filho, esposa, velho, moço, não entendeu, é problema seu, tire suas próprias conclusões, se houver conclusões; não estou aqui para esclarecer e sim para confundir".

Certeiro e afiado como o olhar e a tesoura da mãe alucinada, o filme tem a grandeza dos clássicos, das eternas tragédias gregas que inspiraram Shakespeare e Freud. Vale por vários volumes de psicologia sobre relações parentais, repressão sexual, culpa, solidariedade, egoísmo, aparências, conveniências, consciência (ou falsa consciência ou falta de consciência), moral (ou falsa moral ou falta de moral).