Reportagem
edição 171 - Abril 2007
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A imitação pode curar
Neurônios-espelho nos permitem simular internamente as ações dos outros. A medicina está interessada nessa propriedade para facilitar a reabilitação de pessoas que sofreram derrame
por Ferdinand Binkofski e Giovanni Buccino
[continuação]

Com base nessa hipótese, nós desenvolvemos no Hospital Universitário de Schleswig-Holstein em Lübeck, Alemanha, um programa de reabilitação de pacientes cujas regiões corticais motoras haviam sido lesionadas por AVC. Primeiramente os participantes assistiram a um filme de seis minutos que mostrava uma seqüência de movimentos (por exemplo: estender o braço, abrir a mão, segurar uma maçã, levá-la à boca e por fim mordê-la). Em seguida, cada paciente tentava imitar o que acabara de ver, a fim de consolidar a representação da seqüência no cérebro. Depois de 40 dias de treinamento, a habilidade motora dos participantes melhorou muito mais rápido do que a dos indivíduos do grupo de controle, que não assistiram a vídeo algum.

Em outro estudo, realizado com 22 vítimas de AVC com sérias dificuldades para movimentar braços e mãos, confirmamos o mesmo resultado: o treinamento dos movimentos perdidos funcionou mais rapidamente quando, antes de cada sessão de exercícios, os pacientes assistiram a filmes curtos nos quais movimentos de mão e braços foram apresentados. Com ajuda da fMRI, conseguimos demonstrar que, paralelamente a essa melhora na motricidade, também as regiões do córtex motor estavam mais ativas. Além disso, as áreas responsáveis pelo planejamento de movimentos haviam sido aparentemente reforçadas. Concluímos, portanto, que a simulação interna realmente facilita a execução de movimentos pelos próprios pacientes.

Como já foi demonstrado por diversos estudos, os neurônios-espelho reagem a um grande espectro de movimentos diferentes – seja quando pegamos um objeto, mordemos uma maçã ou chutamos uma bola. Além do mais, não é necessário que a ação seja executada por um representante de nossa própria espécie. O grupo de Buccino mostrou a voluntários imagens de bocas humanas, símias e caninas. Os movimentos se dirigiam a um objeto – melhor dizendo, alguma coisa era comida – ou tinham caráter puramente comunicativo. Na última seqüência, o homem movia os lábios para falar, o macaco torcia os lábios e o cão latia.

Limite do desconhecido

Curiosamente, tanto a mastigação humana quanto a dos animais ativaram igualmente os neurônios-espelho dos voluntários. Durante as cenas que retratavam comunicação, entretanto, a ressonância neuronal só ocorreu quando envolveu seres humanos. Assim, parece que os neurônios-espelho reagem apenas a ações que são parte do próprio repertório motor. Como latidos não fazem parte dele, nenhuma simulação interna é possível.
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Ferdinand Binkofski e Giovanni Buccino Ferdinand Binkofski é neurologista do Hospital Universitário de Schleswig-Holstein, em Lübeck, Alemanha. Giovanni Buccino, também neurologista, é professor e pesquisador da Universidade de Parma, Itália.