Reportagem
  
edição 180 - Janeiro 2008
A neurobiologia da maconha
Sendo o cérebro tão vasto e complexo e a ação dos canabinóides tão diversa, não é de estranhar que a maconha produza efeitos variáveis no tempo, entre indivíduos e em diferentes contextos comportamentais
por Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro
GABI GARCIA/SHUTTERSTOCK
Embora muitos efeitos mentais da Cannabis sejam conhecidos, seus mecanismos de ação no cérebro ainda guardam segredos. Evidências recentes, no entanto, mostram que os canabinóides produzem uma desorganização do ritmo cerebral, principalmente no hipocampo, área relacionada à formação de memória.

Registrando a atividade de dezenas de neurônios por meio de finíssimos fios metálicos conectados a amplificadores, neurofisiologistas húngaros e americanos da Universidade Rutgers em Newark, Estados Unidos, investigaram o efeito de canabinóides naturais e sintéticos na atividade neural e no comportamento de ratos enquanto estes realizavam uma tarefa de alternância espacial.

Os animais tinham de buscar recompensa em lugares que mudam com o tempo conforme uma ordem fixa. Isto exigia que eles se lembrassem da última escolha que fizeram, algo que depende da integridade do hipocampo. Os pesquisadores verificaram que os canabinóides produzem redução na potência dos ritmos hipocampais em diversas faixas de freqüência, efeito que puderam reverter utilizando um antagonista do receptor CB1, isto é, uma droga que bloqueia a ação dos canabinóides neste receptor.
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Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro Renato Malcher-Lopes é doutor em neurociências pela Universidade Tulane em New Orleans e pesquisador pós-doc do Centro de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Embrapa em Brasília.Sidarta Ribeiro, doutor em neurociências pela Universidade Rockefeller em Nova York, é diretor de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra e articulista de Mente&Cérebro. Juntos publicaram Maconha, cérebro e saúde (Vieira&Lent, 2007), do qual este artigo foi adaptado.