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Reportagem

Alois Alzheimer - O investigador do cérebro

Há um século o médico alemão identificou a doença que permaneceu ignorada por décadas e foi alvo de controvérsias, até ser redescoberta nos anos 90

setembro de 2007
Luciana Christante
NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE/SPL- STOCK PHOTOS
August D., que sempre fora uma mulher saudável, educada e um pouco tímida, foi internada no Hospital Municipal de Lunáticos e Epiléticos de Frankfurt no dia 25 de novembro de 1901, aos 51 anos. Entrevistado pelo médico que a atendeu, seu marido contou que os problemas haviam começado seis meses antes com uma súbita e escandalosa crise de ciúme seguida de perda progressiva da memória. Aos poucos August foi se tornando ansiosa e hostil. Por se tratar de um caso incomum, o jovem médico avisou o diretor do hospital. Alois Alzheimer visitou a paciente no dia seguinte.

Na época a Alemanha era um lugar privilegiado para quem quisesse se dedicar ao estudo das doenças mentais. Não por acaso, a trajetória de Alzheimer foi marcada pela convivência com alguns notáveis, entre eles o patologista e anatomista que cunhou o termo neurônio Heinrich Wilhelm Gottfried Waldeyer-Hartz (1836-1921), seu professor na Universidade de Berlim. Em Würzburg, onde terminou a faculdade de medicina em 1888, Alzheimer defendeu a tese intitulada “Sobre as glândulas ceruminosas do ouvido” sob orientação de Rudolf Albert von Kolliker (1817-1905), lembrado hoje por suas grandes contribuições para a histologia, a ciência que estuda tecidos e células. A paixão por lâminas e microscópios acompanharia Alzheimer por toda a vida.

Assim que se formou, foi trabalhar em Frankfurt como médico assistente no Hospital de Lunáticos e Epiléticos, então dirigido por Emil Sioli (1852-1922), entusiasta das idéias de Philippe Pinel (1745-1826) e de Jean-Marie Charcot (1825-1893). Ali encontrou o já famoso neuropatologista Franz Nissl (1860-1919), criador de uma técnica, usada até hoje, de análise histológica de neurônios: o método de Nissl. Não tardou para que Sioli, Alzheimer e Nissl transformassem a instituição em um sanatório de prestígio e substituíssem drogas e medidas coercitivas por ações humanizadas, como banhos terapêuticos e psicoterapia. Além disso, o trio deu início a pesquisas científicas de alto nível baseadas na análise do cérebro de pacientes que morriam no sanatório. Com elas, passaram a relacionar sintomas a alterações anatomopatológicas.
Cuidadoso e detalhista, Alzheimer ficou conhecido pela rara habilidade com que descrevia os achados microscópicos. Dedicava as manhãs ao atendimento aos doentes e passava as tardes no laboratório analisando lâminas de tecido cerebral obtido nas necropsias. A parceria com Nissl, mais criativo e inquieto, foi completada pela disciplina e alto poder dedutivo de Alzheimer. Juntos realizaram um extenso mapeamento das doenças do sistema nervoso conhecidas na época, trabalho que deu origem ao tratado de seis volumes intitulado Estudos histológicos e histopatológicos do córtex cerebral, publicados entre 1906 e 1918. Além de contribuir decisivamente para a neurobiologia do envelhecimento, Alzheimer se dedicou ao estudo da epilepsia, do alcoolismo e da arteriosclerose cerebral e à psiquiatria forense.

KRAEPELIN E FREUD

Alzheimer acompanhou de perto o caso de August D. até 1903, quando se mudou para Heidelberg a convite de Emil Kraepelin (1856-1926), considerado o fundador da psiquiatria moderna. Poucos meses depois, ambos se transferiram para a Clínica Psiquiátrica Real, em Munique, hoje Instituto Max-Planck de Psiquiatria. Com a morte da paciente em abril de 1906, Sioli enviou cérebro e prontuário para que Alzheimer os examinasse. O caso foi apresentado no 37º Encontro de Psiquiatras do Sudoeste da Alemanha em novembro do mesmo ano, em Tübingen. A platéia recebeu os achados com frieza e cautela.

As lâminas do cérebro de August D. foram reanalisadas por alguns pesquisadores nos anos seguintes, que confirmaram o acúmulo de uma substância incomum no córtex cerebral − hoje conhecida como proteína betaamilóide. O caso de um segundo paciente, Johann F., aparentemente portador da mesma anomalia, foi descrito por Alzheimer em 1910. Convencido de que realmente estavam diante de uma nova patologia, no mesmo ano Kraepelin introduziu o termo doença de Alzheimer na oitava edição do seu Tratado de psiquiatria. Houve, entretanto, quem o criticasse pela pressa com que criara o novo epônimo − o que era de certa forma plausível. O homem que identificou a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva foi também um político hábil e ferrenho opositor às idéias de Sigmund Freud (1856-1939), que floresciam não muito longe dali, em Viena. É provável que além das motivações científicas, Kraepelin desejasse com isso promover seu laboratório e, para se contrapor à teoria psicanalítica, reafirmar a importância dos mecanismos biológicos subjacentes a alguns quadros psiquiátricos.
Em 1912, Alzheimer aceitou o convite do rei da Prússia Guilherme II para dirigir a Clínica de Psiquiatria e Neurologia da Universidade Silesiana Friedrich-Wilhelm, em Wroclaw (hoje Breslau, Polônia). Na viagem de trem contraiu uma grave amidalite, que evoluiu para artrite reumatóide e problemas cardíacos e renais. Nunca mais recuperou a saúde e passou os anos seguintes na cama, até morrer em 1915, aos 51 anos.

As duas guerras mundiais, das quais a Alemanha saiu derrotada, contribuíram para que a descoberta de Alzheimer passasse despercebida até a década de 60, quando a maior expectativa de vida da população aumentou o número de casos da doença. Houve controvérsia entre médicos e pesquisadores, pois para muitos deles Alzheimer cometera equívocos, e as lesões descritas no início do século XX na verdade corresponderiam a outras doenças já conhecidas, como a demência vascular.

A polêmica foi realmente resolvida só na década de 90 graças ao notável trabalho investigativo do neuropatologista Manuel Graeber, do Instituto Max-Planck de Neurobiologia. Entre 1992 e 1997 ele encontrou as preparações histológicas do cérebro de August D. e de Johann F., até então esquecidas nos porões da Universidade de Munique. Ao todo são mais de 400 lâminas em ótimo estado de conservação, além de outros documentos que descrevem a história clínica desses pacientes. O material está sendo organizado para a publicação de um livro até o fim deste ano, e estará disponível na internet. Em novembro, Tübingen será a sede de um congresso que celebrará os 100 anos da apresentação do caso de August D. por Alzheimer na mesma cidade. A doença é hoje a forma mais comum de demência e um dos distúrbios mentais que mais concentram esforços de pesquisa, além da preocupação de profissionais da saúde, das famílias e da mídia.
1864 – Nasce em Merkbreit, no dia 14 de junho.

1883 – Ingressa na Universidade de Berlim.

1888 – Forma-se médico em Würzburg e começa a trabalhar no Hospital Municipal de Frankfurt.

1901 – August D. é internada no hospital de Frankfurt.

1903 – Muda-se para Munique para trabalhar na Clínica Psiquiátrica Real na companhia de Emil Kraepelin.

1906 – August D. morre em Frankfurt. Alzheimer apresenta o caso em congresso em Tübingen.

1910 – Kraepelin cunha o termo doença de Alzheimer.

1912 – Muda-se para Breslau, antiga Prússia, onde assume a direção da Clínica de Psiquiatria e Neurologia.

1915 – Morre em Breslau, aos 51 anos, vítima de endocardite e insuficiência renal.