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Reportagem

Arte Perturbadora

Na síndrome de stendhal, o contato com certas obras de arte, especialmente as do renascimento italiano, provoca confusão mental e alucinações e traz à tona transtornos psíquicos latentes.

outubro de 2006
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Jovens, geralmente turistas europeus de bom nível cultural e com grande sensibilidade estética, quase sempre solteiros ou viajantes solitários. Eis algumas das características das vítimas da síndrome de Stendhal, distúrbio psíquico que se manifesta como angústia, confusão mental e senso de desagregação. O que deflagra esse mal-estar são obras de arte, particularmente as do período renascentista, ou simplesmente a atmosfera típica de cidades históricas como Florença e Roma. Não por acaso foi a psiquiatra e psicanalista florentina Graziella Magherini quem identificou o transtorno. "Nas décadas de 80 e 90 eu era a responsável pelo serviço de saúde mental do Hospital de Santa Maria Nova, em Florença. Junto com meus colegas comecei a perceber a recorrência de casos de emergência de pessoas afetadas por um distúrbio psíquico repentino", diz. Estudando cada um deles a equipe identificou alguns elementos em comum nessas pessoas: grande sensibilidade emocional, contato com obras de arte e viagem a um país estrangeiro. "O fenômeno nos pareceu digno de aprofundamento, principalmente porque esses indivíduos partiram de casa saudáveis, ou, pelo menos, psicologicamente equilibrados. Pesquisamos o problema durante dez anos."

O nome escolhido para o distúrbio foi inspirado no escritor francês Stendhal (1783-1842), que descreveu em seu diário o transtorno emocional vivido numa visita à basílica da Santa Cruz, em Florença. "A vertigem psíquica que ele sofreu foi tal, que o obrigou a sair da basílica para se recuperar. Exatamente como ocorre com nossos pacientes", conta Graziella.
Vários viajantes ilustres passaram pelo mesmo problema durante o chamado grand tour, uma espécie de viagem obrigatória à Itália que as pessoas faziam antigamente para complementar sua formação humanística. Não raro, porém, alguns manifestaram a síndrome de Stendhal depois da visão de uma única obra, mesmo exposta em contextos que não exatamente o renascentista. Passou por essa situação, por exemplo, o romancista russo Fiodor Dostoievski, depois de ver o Cristo morto pintado pelo alemão Hans Holbein, Basiléia. Sua esposa registrou em diário a perturbação do escritor: "A visão do rosto inchado de Cristo após seu martírio desumano era terrível. (...) Fiodor permaneceu em pé diante do quadro com uma expressão oprimida. Olhá-lo me fazia mal, então fui para outra sala. Voltei 20 minutos depois e ele ainda estava lá, na mesma posição diante do quadro. Seu olhar exprimia medo. Levei-o para outra sala, ele se acalmou lentamente, mas insistiu ainda em tornar a ver o quadro que tanto o perturbara".

Anjos e demônios
No livro A síndrome de Stendhal, Graziella Margherini descreve alguns turistas desconcertados pela beleza. Um deles é Franz, um senhor alemão que saiu de uma galeria de arte florentina com alucinações visuais e o "coração e a cabeça em chamas". Voltou em seguida e, em frente ao jovem Bacco, de Caravaggio, apresentou típicos sintomas pré-infarto que depois se revelaram apenas psíquicos. Esses acontecimentos levaram Franz a refletir sobre sua própria homossexualidade reprimida.

Outro caso é o de Brigitte, norueguesa que teve taquicardia e cansaço exacerbado por não suportar a "sexualidade difusa" de Florença. "Até mesmo as obras de Fra Angelico [pintor italiano renascentista], tão ingênuas e puras, exprimem uma violência sexual muito forte, semelhante à dos artistas modernos", diz. "Depois de refletir sobre as razões de sua súbita perturbação, Brigitte admitiu: "Nós dos países nórdicos não estamos preparados para um choque desses. Somos menos maduros, mais ingênuos em relação ao mundo dos sentidos, educados sob rígida moral protestante".

O Fra Angelico está também na origem das alucinações povoadas por anjos e demônios que obrigaram Martha, uma jovem de 25 anos, a permanecer no hotel durante toda sua viagem de formatura. Já a americana Lucy ficou convencida de ser a reencarnação de uma freira da região da Úmbria morta com a sua idade, 20 anos. Ao examiná-la, os psiquiatras florentinos descobriram uma história de abandono paterno, timidez extrema e desconforto psíquico. Como é usual nesses casos, os cuidados limitaram-se a um breve tratamento que permitisse o retorno ao país de origem, com a esperança de que o problema fosse um alarme que a levasse a reconsiderar seu próprio sofrimento e a buscar acompanhamento psicológico.
Volta para casa
Os episódios de mal-estar que caracterizam a síndrome de Stendhal não costumam ter conseqüências mais graves. Bastam um pouco de repouso, proximidade com algo familiar ou prescrição de medicamentos leves. O olhar mais atento mostra que esses pacientes compartilham uma vida de aparente equilíbrio que esconde entretanto insatisfações, dificuldades de relacionamento ou personalidade extremamente austera - que acaba sendo perturbada pela força evocativa da arte.

O espectro de sintomas é bem variado: algumas pessoas sofrem com alucinações e alteração da percepção; outras manifestam desequilíbrio afetivo ou depressão; angústia e ataques de pânico podem ocorrer ainda em algumas pessoas. "Em dez anos de observação, verificamos que a remissão rápida é freqüente, sobretudo entre os mais jovens, mas depende do tipo de sintoma: os que apresentaram dissociações psicóticas, mania de perseguição ou alucinações têm sete vezes mais chance de não se recuperar rapidamente, comparados aos que tiveram apenas distúrbio afetivo ou sintomas depressivos", explica Graziella.

Crítico é o momento em que o paciente recebe alta: ele deve decidir se continua a viagem ou volta para casa. A experiência do Hospital de Santa Maria Nova mostra que aqueles com distúrbios psicóticos e histórico psiquiátrico tendem a retornar ao país de origem. Segundo a psiquiatra italiana esses momentos, embora difíceis, devem ser encarados como uma oportunidade de enriquecimento. "Uma viagem a um lugar rico em obras de arte pode ser considerada uma \\`viagem da alma\\`, capaz de revelar uma trama de emoções e sentimentos na qual a identidade do contemplador é colocada à prova. Evidentemente nem todos conseguem administrar essa descompensação do mesmo modo." Embora cada indivíduo reaja de forma particular, os especialistas notaram que algumas obras, como as de Caravaggio e a de Michelangelo - com toda sua carga de ambigüidade e sensualidade -, são muito perturbadoras e podem revelar mais facilmente os conflitos profundos do inconsciente.

Síndrome de Davi
Em certos casos a beleza extrema deflagra sentimentos ambivalentes. Foi o que ocorreu com Isabelle, professora francesa de educação artística que visitava com seus alunos um museu de Florença. Tomada por um impulso irrefreável de danificar e retalhar certos quadros, em especial os auto-retratos, ela mesma se deu conta do absurdo e fugiu. Muito desorientada, vagou pela cidade até ser encaminhada ao pronto-socorro. Segundo Graziella, a professora apresentou um híbrido entre a síndrome de Stendhal e a chamada síndrome de Davi.
Considerado por séculos como símbolo máximo da harmonia e da beleza masculina, o Davi de Michelangelo tornou-se objeto de estudo da psiquiatria como carrasco que dá nome a uma patologia. As reações emocionais desse novo distúrbio se sobrepõem, pelo menos em parte, àquelas da síndrome de Stendhal. "Davi encanta por sua beleza formal, mas sua perfeição estética não provoca tranqüilidade em todas as pessoas. "Como na síndrome de Stendhal, alguns turistas têm ataques de pânico e um senso de perda dos próprios limites", explica a médica.

A síndrome de Davi tem características próprias. "Essa obra pode suscitar sentimentos inconscientes e primitivos, que a própria vítima não consegue explicar. De um lado ela faz a pessoa sentir-se grande e forte , e, por outro, ciumenta e invejosa da perfeição da escultura." Em certos indivíduos aflora um instinto de vandalismo, como forma de reafirmar o próprio eu - colocado em perigo pela opulência estética. Além disso, há perturbações de natureza sexual. "Quase todos consideram Davi o emblema do macho perfeito. Nasce em alguns o desejo de identificação erótica; e em outros, de fusão, quase de amor carnal."

Psiquiatras e psicólogos concordam que deve existir uma relação estreita e complexa entre o tipo de reação, o modo de vivê-la, a estrutura da personalidade e as experiências pessoais. "As manifestações das crises ligadas a viagens a certas cidades não podem ser consideradas como efeito de um simples curto-circuito entre o evento externo e o mundo subjetivo. As características da crise, da obra de arte ou da atmosfera de um lugar como Florença interagem com os elementos que constituem o indivíduo, os quais por sua vez são influenciados pela história deste", conclui a especialista.

Neuroestética

Não é só a psicologia que tenta explicar a arte. Há tempos neurocientistas se questionam sobre as bases biológicas da percepção estética. Anos atrás, por exemplo, pensava-se que o feio e o belo fossem percebidos por duas áreas distintas do cérebro. Estudos mais recentes baseados em ressonância magnética funcional, porém, não confirmaram essa hipótese.

Ainda que as regiões envolvidas sejam sempre as mesmas (geralmente as responsáveis pela percepção visual), a ativação dos neurônios é diferente em resposta a objetos considerados feios ou bonitos,  o que sugere uma modulação da reação ao estímulo. Isso também parece explicar por que há preceitos estéticos universalmente aceitos. Sabe-se, por exemplo que, independentemente do sexo do observador, um rosto é reconhecido como belo quanto mais traços femininos houver nele. É fato também que a percepção estética está fortemente sujeita a condicionantes culturais

Assim, a neuroestética - ciência que estuda os mistérios da arte em relação ao cérebro humano - concentra-se em estímulos supostamente neutros e procura pesquisar também os aspectos da experiência individual que influenciam a percepção do mundo.
A beleza estética do Davi de Michelangelo pode deflagrar fortes perturbações emocionais que desencadeiam atos de vandalismo - fenômeno conhecido como síndrome de Davi

Vândalos ou doentes?

Em 1991, o Davi de Michelangelo teve o pé danificado depois se ser atacado a marteladas por Pietro Cannata, que sofria de distúrbios psíquicos. Dois anos depois ele riscou uma obra de Filippo Lippi (As exéquias de Santo Estêvão) e outra de Michele di Raffaello delle Colombe (A adoração dos pastores). Em 1999, Cannata golpeou com uma caneta um quadro de Jackson Pollock e dois de Fontana e Burri expostos em Roma.

A obra que mais sofreu atentados foi a Ronda noturna de Rembrandt, exposta no Rijksmuseum de Amsterdã. Foram três ataques. Em 1915 um sapateiro desempregado riscou a tela causando danos leves; em 1975 um desconhecido abriu, a facadas, 13 rasgos no quadro, alguns com até 80 cm; em 1990 um holandês jogou ácido sulfúrico na obra. Também foram danificados nos últimos 25 anos: A adoração do bezerro de ouro de Nicolas Poussin e A mulher que lê de Picasso. Outra tela de Rembrandt, Dânae, sofreu estragos em 1985, assim como o Retrato do cardeal de Rafael, um ano depois.

Para conhecer mais

La sindrome di Stendhal. Il malessere dei viaggiatori di fronte alla grandeza dell\\`arte. Graziella Magherini, Ponte alle Grazie, 2003.

Notas sobre a fruição estética a partir de sua experiência limite: a síndrome de Stendhal. Inês Loureiro, em Psychê n o 16, págs. 97-114, 2005.