Reportagem
edição 165 - Outubro 2006
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Arte Perturbadora
Na síndrome de stendhal, o contato com certas obras de arte, especialmente as do renascimento italiano, provoca confusão mental e alucinações e traz à tona transtornos psíquicos latentes.
 
[continuação]

Volta para casa
Os episódios de mal-estar que caracterizam a síndrome de Stendhal não costumam ter conseqüências mais graves. Bastam um pouco de repouso, proximidade com algo familiar ou prescrição de medicamentos leves. O olhar mais atento mostra que esses pacientes compartilham uma vida de aparente equilíbrio que esconde entretanto insatisfações, dificuldades de relacionamento ou personalidade extremamente austera - que acaba sendo perturbada pela força evocativa da arte.

O espectro de sintomas é bem variado: algumas pessoas sofrem com alucinações e alteração da percepção; outras manifestam desequilíbrio afetivo ou depressão; angústia e ataques de pânico podem ocorrer ainda em algumas pessoas. "Em dez anos de observação, verificamos que a remissão rápida é freqüente, sobretudo entre os mais jovens, mas depende do tipo de sintoma: os que apresentaram dissociações psicóticas, mania de perseguição ou alucinações têm sete vezes mais chance de não se recuperar rapidamente, comparados aos que tiveram apenas distúrbio afetivo ou sintomas depressivos", explica Graziella.

Crítico é o momento em que o paciente recebe alta: ele deve decidir se continua a viagem ou volta para casa. A experiência do Hospital de Santa Maria Nova mostra que aqueles com distúrbios psicóticos e histórico psiquiátrico tendem a retornar ao país de origem. Segundo a psiquiatra italiana esses momentos, embora difíceis, devem ser encarados como uma oportunidade de enriquecimento. "Uma viagem a um lugar rico em obras de arte pode ser considerada uma 'viagem da alma', capaz de revelar uma trama de emoções e sentimentos na qual a identidade do contemplador é colocada à prova. Evidentemente nem todos conseguem administrar essa descompensação do mesmo modo." Embora cada indivíduo reaja de forma particular, os especialistas notaram que algumas obras, como as de Caravaggio e a de Michelangelo - com toda sua carga de ambigüidade e sensualidade -, são muito perturbadoras e podem revelar mais facilmente os conflitos profundos do inconsciente.

Síndrome de Davi
Em certos casos a beleza extrema deflagra sentimentos ambivalentes. Foi o que ocorreu com Isabelle, professora francesa de educação artística que visitava com seus alunos um museu de Florença. Tomada por um impulso irrefreável de danificar e retalhar certos quadros, em especial os auto-retratos, ela mesma se deu conta do absurdo e fugiu. Muito desorientada, vagou pela cidade até ser encaminhada ao pronto-socorro. Segundo Graziella, a professora apresentou um híbrido entre a síndrome de Stendhal e a chamada síndrome de Davi.
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