Reportagem
  
edição 178 - Novembro 2007
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Carros: paixão masculina
Para a maioria dos homens os automóveis são objetos de desejo; simbologias arcaicas explicam por que despertam afetos intensos e fazem sonhar
por Emanuela Zerbinatti
CENTAUROS E GUERREIROS
CENTAURO FERIDO, SÉC.XV.OLÉO S /TELA DE FRA FILIPPO LIPPI, COLEÇÃO PARTICULAR
CENTAURO FERIDO, de Fra Filippo Lippi, séc. XV
A identificação do homem com um meio de transporte não é um fenômeno novo: numa época em que o carro nem sequer havia sido remotamente imaginado, a mitologia criou a figura do centauro, um ser de tronco humano num corpo de cavalo. Ao cavalgá-lo era possível adquirir os mesmos dons de velocidade e potência que hoje atribuímos ao carro. Pois, no fundo, existe a consciência de que essas qualidades não pertencem completamente ao homem – mas podem ser comandadas (como uma prótese); surge aí a ilusão de onipotência que faz aquele que guia se sentir capaz de superar qualquer obstáculo. Esse olhar psicológico evoca de imediato a triste realidade dos massacres nas estradas, que quase sempre se devem ao excesso de velocidade e à imprudência.

“Voltando a Freud, podemos pensar que a escolha de chegar até o limite máximo de velocidade do automóvel é, para algumas pessoas, uma forma de compensação, utilizada para nivelar traços pessoais deficitários e ostentar potência e força”, afirma Albanese. O pesquisador alerta, porém, que essa atitude revela um ato falho implícito. “Esses motoristas demonstram exatamente o contrário, pois já é de domínio do senso comum que quem é realmente forte não precisa demonstrá-lo de forma tão acintosa. Ao passarem em alta velocidade, colocando em risco a própria vida e a dos outros, esses indivíduos desafiam a lei, a física e também a morte. O próprio desejo de possuir carros barulhentos remete ao espírito do guerreiro ancestral: seria possível incutir medo no exército inimigo se não produzíssemos nenhum som?”

Talvez não por acaso o potente centauro da Antigüidade estava a serviço de Marte, deus da guerra, e era, com efeito, violento e arrogante. “De fato, de carro a maioria das pessoas se sentem muito mais prontas para suas próprias guerras pessoais (quaisquer que sejam elas). Nesse nicho nos sentimos protegidos, escondidos da visão dos demais pelos vidros, pelos reflexos e pela própria distância física, como se estivéssemos num tanque de guerra. O outro lado da moeda é que o outro tampouco estará completamente visível para nós e, portanto, não é identificado como uma pessoa digna de respeito ou piedade.”
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Emanuela Zerbinatti é jornalista