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Reportagem

Canibalismo: da cultura à perversão

O ato de comer carne humana, praticado por culturas ancestrais e durante alguns períodos de extrema escassez, representa a concretização de fantasias sexuais sádicas que indicam problemas na constituição da identidade

outubro de 2007
Nahlah Saimeh
FOTOMONTAGEM DE TATIANE SANTOS/© SARAJO FRIEDEN/GETTY IMAGES
O técnico de informática alemão Armin Weives era um homem comum, parecia pacífico e solitário. Sua vida mudou da água para o vinho depois de um bizarro jantar, que lhe rendeu prisão perpétua cinco anos depois. O prato principal foi o pênis do engenheiro Bernd Juergen Brandes, que, aliás, também degustou a macabra iguaria, antes de ser assassinado, esquartejado, comido paulatinamente nos dias seguintes. A história começara meses antes, quando Weives colocou um anúncio na internet procurando alguém que quisesse ser morto e devorado. Brandes mostrou-se disposto e concordou em ter o membro sexual amputado, flambado e servido antes do suspiro final. Todo o ritual foi filmado. O crime cometido em 2001 só veio à tona no ano seguinte. Durante o inquérito, Weives, que ficou conhecido como o canibal de Rotemburgo, confessou tê-lo cometido com motivações sexuais. Em agosto deste ano outro caso de canibalismo chocou os europeus. Após terem sido avisados por vizinhos, policiais de Viena prenderam Robert A. por ter assassinado e comido partes do corpo (entre elas o cérebro) de Joseph S. Ambos sem-teto, eles viviam juntos num apartamento cedido pelo serviço social do governo austríaco.

Casos de canibalismo aparecem no noticiário de tempos em tempos, indicando que o fenômeno é mais freqüente do que ousamos pensar. Quem tiver estômago para pesquisar na internet vai encontrar instruções detalhadas de desmembramento do corpo humano, sempre associadas a conteúdos de temática sexual, que mais parecem guias para o abate de animais. Afinal, como explicar esse fenômeno que à maioria de nós é tão repugnante?

FORÇA E CORAGEM

As práticas canibais, ou antropofágicas, são tão antigas quanto a humanidade. Um tipo bem documentado é o canibalismo famélico, que aparece em períodos de extrema escassez de alimentos, como aconteceu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) ou no cerco a Leningrado (hoje São Petersburgo) durante a Segunda Guerra Mundial. A queda de um avião na cordilheira dos Andes, em 1972, mostrada nas telas do cinema, expôs o drama dos sobreviventes que, para não morrer de fome, se alimentaram da carne das vítimas do acidente.

O canibalismo como ritual é um fenômeno bem diferente. Em culturas antigas, como a dos habitantes originais da Indonésia, Austrália e Nova Zelândia, o consumo de carne humana tinha como objetivo incorporar atributos dos mortos, como força, coragem, integridade, e só deixou de ser praticado no século XX. Na Amazônia, os índios ianomâmis até hoje adicionam cinzas funerárias a uma pasta de banana, usada em vários pratos, para entrar em contato com a alma dos que já partiram. Em muitas outras culturas, as práticas antropofágicas consistiam no consumo de alguma parte do corpo, como o coração ou o cérebro, o que causou uma epidemia de kuru, doença neurológica degenerativa causada por uma proteína patogênica (príon), na Papua Nova Guiné, nos anos 60. Os rituais canibalísticos, porém, nem sempre tiveram cunho religioso. Para se vingar do adversário vencido, possivelmente assimilando sua força, muitas batalhas e guerras do passado terminavam em cerimônias nas quais os prisioneiros eram servidos como prato principal, como acontecia entre os índios da América pré-colombiana e os chineses que viveram sob a dinastia Chou (1122 a.C.-255 a.C).
© UWE ZUCCHI/AFP
ARMIN WEIVES: anúncio na internet para encontrar alguém que quisesse ser morto e devorado
A disseminação do cristianismo no Ocidente e do islamismo no Oriente foram duas importantes forças repressoras dos rituais canibais, de modo que, quando o fenômeno volta a ocorrer, ainda que esporadicamente, nos dias de hoje, está sempre associado a indivíduos de alguma forma deslocados na sociedade, quase sempre portadores de transtornos psíquicos. Trata-se do canibalismo patológico.

O risco de um esquizofrênico sem tratamento adequado cometer um crime de morte é bem maior que o de uma pessoa saudável. Durante a fase aguda de surto, muitos pacientes são tomados pela sensação de “dissolver-se”. Nesse caso, o ato canibal pode ser a última tentativa desesperada de ter de volta o próprio corpo. Assolado por alucinações paranóides, o indivíduo se sente perseguido, ameaçado por forças que o fazem se sentir predestinado ou alçado a uma condição superior. As vozes imaginárias podem sugerir, por exemplo, que a ingestão de carne humana o tornará imortal ou libertará o mundo das forças do mal. Esse foi precisamente o caso de Paul Reisinger, que assassinou seis mulheres entre 1779 e 1786 na Áustria. Ele estava convencido de que comendo o coração ainda palpitante das jovens obtinha sorte no jogo e podia se tornar invisível.

É preciso deixar claro, no entanto, que os atos de canibalismo são exceções entre os delitos violentos praticados por esquizofrênicos durante episódios de psicose aguda. Sempre que esses crimes estiveram associados a transtornos psíquicos, e foram devidamente julgados, os réus foram considerados criminalmente inimputáveis e encaminhados para clínicas psiquiátricas, onde ficaram sob a custódia da Justiça. Embora raros, os casos de canibalismo patológico costumam estar associados a transtornos graves de personalidade e perversão de natureza sádica.

PERVERSÃO SÁDICA

A antropofagia é um componente habitual das relações afetivas e sexuais. Os atos de beijar, morder e chupar fazem parte do repertório das carícias trocadas entre pais e filhos e entre casais; expressam proximidade emocional e desejo de ter o outro, simbolicamente, “dentro de si”. Esse desejo erótico de incorporar a pessoa amada transparece quando se diz que alguém é “gostoso” ou quer “comer” o outro. A fantasia de devorar ou ser devorado também está presente em diversas fábulas e brincadeiras de crianças e adultos.
© DANIELLE KAUFMANN/123RF
Quando o canibalismo se converte em crime sexual, no entanto, raiva e agressividade são dois componentes quase sempre presentes. Depois de deglutir o amante, Armin Weives disse que seu ato tinha sido “como um casamento, algo que o alçou a uma condição sobrenatural... Eu tinha a esperança de que ele se tornasse parte de mim”. Enquanto o matava e o esquartejava, desfrutou um estado eufórico que combinava ódio e alegria.

Outro canibal famoso, o japonês Issei Sagawa, que comeu sua professora de alemão em 1981, deixou um registro escrito da cena: “Corto seu corpo e levo a carne à boca inúmeras vezes. Então fotografo seu cadáver branco com ferimentos profundos. Faço sexo com seu corpo. Quando a abraço, ela emite um sopro, me assusto, ela parece viva. Eu a beijo e digo que a amo. Então, arrasto seu corpo para o banheiro. A essa altura estou exausto, mas corto sua anca e coloco a carne em uma assadeira. Depois de cozida, sento-me à mesa usando suas roupas de baixo como guardanapo. Elas ainda têm o cheiro de seu corpo”.

O crime foi cometido na França. Sagawa, um estudante de literatura de 33 anos, matou a tiros a holandesa Renée Hartevelt, de 25 anos. Pedaços dela, cuidadosamente embrulhados, foram encontrados na geladeira dele. Ele não resistiu à prisão e confessou o crime. Foi levado para uma clínica psiquiátrica francesa, onde foi classificado como “psicótico intratável”. Depois de repatriado ao Japão, deixou o hospital em 1985, graças à pressão do pai, um rico empresário, e hoje é uma espécie de ídolo pop bizarro.

Crimes como os de Sagawa e de Weives representam o ponto final de uma evolução perversa sexualmente sádica. Para compreender o fenômeno, é interessante analisar como surge a perversão sexual, que não contém necessariamente o elemento sádico. O psiquiatra e psicanalista Robert J. Stoller (1924-1991), da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em Los Angeles, reconheceu nessa modalidade de canibalismo uma forma de ódio erótico cujas raízes estão no desenvolvimento, na infância, da identidade masculina: o bebê se sente fundido à mãe, seu corpo e seu psiquismo não existem separados da pessoa que lhe serve de referência no mundo. Com base na teoria da psicanalista Melanie Klein é possível pensar que, no decorrer do processo de individuação, o garoto se reconhece como possuidor de um corpo próprio, de homem, não de mulher. Então lutará constantemente contra uma nova fusão com a mãe que, no desenvolvimento de sua identidade masculina, pode se converter temporariamente em uma “mãe má”.
© PARAMOUNT PICTURES/ALBUM – LATINSTOCK
SOBREVIVENTES: A TRAGÉDIA NOS ANDES (1993): para não morrer de fome, as pessoas se alimentaram da carne das vítimas do acidente
No ritual canibal perverso esse elemento do “mal” se projeta no objeto a ser destruído. Por outro lado, a assimilação da carne serve para restabelecer a ligação simbiótica original. Segundo Stoller, o cerne da perversão é a raiva e o ódio, provavelmente resultantes de frustrações vividas na infância no tocante à sexualidade. Doenças e humilhações, e o sofrimento a elas inerente, são renegados ou convertidos no próprio triunfo.

O psiquiatra e psicanalista alemão Eberhard Schorsch (1935-1991) analisou outros aspectos da perversão sexual. Segundo ele, as fases da perversão se dividem em quatro. Na primeira, fantasias sexuais desviantes já se mostram intensas, mas só emergem esporadicamente. Na segunda, aparecem com regularidade, como penosos conflitos. Na terceira etapa a sexualidade quase não pode ser vivenciada sem essas fantasias e os desencadeadores da crise não são mais debelados. Neste ponto, o processo se torna irreversível. Finalmente, na última fase, as fantasias sexuais desviantes transformam-se em novos rituais e passam a ocupar espaço cada vez maior.

A encenação perversa serve-se principalmente da exploração do medo e da tensão. Com isso o indivíduo se vê aliviado das agressões e consegue levar uma vida discreta, sem levantar suspeitas. Seus pensamentos e sentimentos, porém, denunciam uma identidade masculina fragilizada e se ocupam basicamente com delírios de potência e poder, busca de proximidade e calor, defesa contra diversos medos, entre eles o de ser abandonado ou “engolido” por uma mulher. A obsessão sexual também é uma forma de repelir essas aflições. Em geral, as pessoas com sintomas perversos não chegam a ter uma sexualidade saudável, já que toda sua intimidade está impregnada pelo medo.
Já o sádico experimenta satisfação na total dominação do objeto sexual. Por meio do aviltamento e do suplício ele consegue a submissão absoluta da vítima, o que o desloca para uma posição equivalente à divina. Há também demonstrações de raiva e ódio, por meio das quais o outro é “despersonalizado”. Quase sempre essa encenação assume contornos violentos e obedece a regras estritas.

INFLUÊNCIAS SOCIAIS

Um modelo detalhado de perversão sexual sádica foi proposto em 2001 pelos psicólogos Bruce A. Arrigo e Catherine E. Purcell, da Escola Califórnia de Psicologia Profissional em Fresno. Eles partem do princípio de que os traços de sadismo se originam em experiências de violência e de humilhação vivenciadas na infância e na adolescência, mas adquirem vigor por meio de fatores predisponentes, como influências sociais, ou genéticas. Segundo os pesquisadores, alguns indivíduos que se privam de experiências emocionais para evitar mais frustrações e se evadem em fantasias compensatórias, em que predominam solidão, masturbação e conteúdos perversos, paulatinamente se distanciando da vida social. O prazer sexual o entusiasma e preenche temporariamente seu vazio. A perversão substitui o contato humano e, em certa medida, atua como um elemento compensatório, assim como um bicho de pelúcia ajuda a criança pequena, durante algum tempo, a vencer a separação da mãe. No caso do boneco macio, denominado objeto transicional pelo psicanalista inglês Donald D. Winnicott, costuma haver um investimento afetivo temporário. Essa fase é ultrapassada no desenvolvimento saudável, mas nos casos patológicos permanece estagnada.

Modelos e teorias ajudam a entender por que algumas pessoas adotam um comportamento tão macabro. Alguns, porém, conseguem desfrutar fantasias sádicas, sem convertê-las em atos criminosos, ao passo que outros ultrapassam os limites da razão e praticam atrocidades. É provável que nestes últimos persista a sombra de graves distúrbios na relação afetiva entre a criança e a pessoa que cuidava dela de maneira mais próxima em seus primeiros meses de vida. Experiências negativas durante a primeira infância podem promover alterações neurobiológicas muitas vezes irreversíveis. Inversamente, é possível que anomalias cerebrais preexistentes interfiram no desenvolvimento psíquico.

CONCEITOS-CHAVE

- As práticas canibais documentadas ao longo da história indicam que o fenômeno faz parte da cultura de diversos povos primitivos da América e da Ásia e pode aparecer em situações extremas de escassez de alimentos, como guerras.

- O canibalismo patológico geralmente acomete indivíduos com algum tipo de transtorno psíquico. O caso do canibal de Rotemburgo, que ficou famoso em 2002, é particular porque a vítima consentiu em ser mutilada, assassinada e comida.

- A motivação do canibal poderia ser explicada pela perversão sexual sádica, que teria origem em problemas no processo de individuação, quando a criança se “separa” do corpo da mãe. Assim, a assimilação da carne humana serviria para restabelecer a ligação simbiótica original.
REPRODUÇÃO
ANTROPOFAGIA: Hans Staden registrou os costumes festivos dos selvagens ao matar e comer seus inimigos

RITUAIS, SACRIFÍCIOS E INIMIGOS ASSADOS

Foi o historiador e cronista grego Heródoto, do século V a.C, o primeiro a abraçar a complicada tarefa de analisar e classificar o fenômeno do canibalismo. Foi ele que cunhou a palavra “antropofagia” (fusão de antropos, que significa “homem”, e phagein, comer), até hoje a mais apropriada para designar o ato de comer carne humana. O termo canibal apareceu no século XVI, quando a esquadra de Cristóvão Colombo passou pelas Pequenas Antilhas, conhecidas hoje como Caribe. Os índios que habitavam essas ilhas tinham o hábito de comer carne humana em rituais religiosos e se designavam “cariba”, que não era o nome deste povo como concluíram os espanhóis, mas um adjetivo que significava bravo, “corajoso”. Um erro de pronúncia dos europeus criou a palavra “caniba”, que rapidamente passou a descrever toda e qualquer cultura, invariavelmente inferior, que consumisse indivíduos da mesma espécie.

Os hábitos dos índios caribenhos espantaram os colonizadores espanhóis, mas nada que se compare ao que eles viram quando chegaram ao antigo México. Ao entrar em território asteca, a expedição do conquistador Hernán Cortez encontrou corpos semidevorados espalhados ao longo de estradas e homens enjaulados aguardando serem consumidos. Durante a conquista daquelas terras, Cortez testemunhou muitos de seus homens serem capturados, sacrificados e devorados.

O primeiro relato objetivo de canibalismo foi feito no Brasil pelo navegador alemão Hans Staden. Depois de naufragar na costa brasileira, Staden foi capturado por uma tribo tupinambá, na qual presenciou diversos rituais canibais. De volta à Europa, descreveu a experiência no livro Duas viagens ao Brasil (Edusp, 1974). Em uma das histórias, Staden conta que as crianças para as quais ele ensinava música acabaram assassinadas e usadas numa sopa que ele consumiu sem saber dos ingredientes. O alemão só se deu conta do que havia ocorrido quando viu, no fundo do caldeirão, os pequenos crânios.

FANTASIAS INFANTIS DE DEVORAR A MÃE

A oralidade é um aspecto fundamental no desenvolvimento humano. Freud desenvolveu teoria sobre a organização psicossexual identificando as fases oral, anal, fálica, de latência e genital. A primeira delas, chamada por seu discípulo Karl Abraham (1877-1925) de “canibalesca”, tem como base a fantasia de incorporação do outro (protótipo da identificação). Para a psicanalista Melanie Klein (1882-1960), todos temos impulsos destrutivos no começo da vida. A expressão “sádico-oral”, usada por ela, está relacionada ao prazer da sucção, que normalmente é sucedida pelo ato de morder. Se a criança não obtiver gratificação ao sugar, tentará se satisfazer mordendo. O seio (e para ela a imagem da mãe confunde-se com o seio) desperta sentimentos ambíguos: ao mesmo tempo que o ama porque a alimenta e aconchega, também o odeia e inveja porque se afasta e guarda em si todo o leite. Segundo Klein, essas fantasias infantis de destruição e devoração do corpo da mãe são esperadas, mas ao longo do amadurecimento psíquico há oportunidade para elaborá-las, repará-las e sublimá-las.