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Reportagem |
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| edição 175 - Agosto 2007 |
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| Efeito Camaleão |
| Lesões no lobo frontal podem desencadear a síndrome de Zelig, distúrbio raro, em que pacientes assumem novas identidades em resposta a estímulos ambientais |
| por Daniela Ovadia |
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© COLIN HAWKINS/GETTY IMAGES |
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Até os 65 anos o professor de literatura João D. era um líder político na pequena cidade onde morava. Apaixonado por teatro, atuou desde a adolescência em montagens de grupos amadores. Após sofrer uma lesão cerebral causada pela falta de oxigênio no cérebro durante um infarto, porém, sua vida se transformou. Semanas após receber alta do hospital, sua mulher, Lúcia, levou-o de volta à instituição, queixando-se de seu comportamento irritadiço e repetitivo. Ela estava assustada: João agora perdia facilmente o controle e, em algumas situações, parecia ser outra pessoa. Quando entrou no consultório, o professor mostrou-se cordial e colaborou com o neurologista que o examinava. Em dado momento, declarou: “Eu também sou médico”.
Por trás do paciente, Lúcia abanava a cabeça, fazendo sinal negativo para o neurologista. A entrevista e os exames clínicos foram suficientes para mostrar graves distúrbios de memória autobiográfica (que compreende episódios importantes da própria história de vida), ocorrência de confabulações (discursos fantasiosos e incoerentes) e desconhecimento da própria doença. João D. sofria também de amnésia anterógrada, disfunção que impede a fixação de novos eventos. Na prática, ele vive a contínua renovação do presente, desvinculada do passado – e esquece o que acabou de acontecer. Preocupada, Lúcia contou ao médico que o marido afirma ser colega de profissão de cada pessoa com quem se encontra. “Há poucos dias ele convenceu um advogado de ter feito curso de direito e de trabalhar até recentemente num escritório jurídico.” |
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| Daniela Ovadia é jornalista.– Tradução de Tatiana Fonseca Oliveira |
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