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Reportagem |
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| edição 175 - Agosto 2007 |
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| Efeito Camaleão |
| Lesões no lobo frontal podem desencadear a síndrome de Zelig, distúrbio raro, em que pacientes assumem novas identidades em resposta a estímulos ambientais |
| por Daniela Ovadia |
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© PHOTOS12/AFP |
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| NO FILME Zelig, de 1983, o protagonista, interpretado por Woody Allen, fica conhecido como “camaleão urbano” |
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[continuação]
A amnésia anterógrada é uma forma singular de perda de memória: não danifica recordações precedentes ao aparecimento da doença, mas impede a fixação mnemônica de qualquer evento posterior. Os pacientes vivem o eterno presente e ignoram inclusive o fato de estarem doentes. Casos de amnésia anterógrada pura são muito raros; sua ocorrência está freqüentemente associada à amnésia retrógrada. A manifestação simultânea decorre de lesões em áreas fundamentais da memória: hipocampo e corpos mamilares, duas pequenas protuberâncias na base do cérebro e fundamentais na consolidação das recordações.
Esses distúrbios mnêmicos não interferem na memória semântica, a das recordações de fatos e situações gerais, nem na memória episódica, que reúne lembranças não ligadas a vida pessoal. Registros atuais de amnésia anterógrada sinalizam que pode ser provocada por ansiolíticos benzodiazepínicos ou drogas usadas como pré-anestésicos. O neurologista americano Oliver Sacks tornou a patologia conhecida com a descrição de dois casos em seu livro O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (Companhia das Letras, 1997). No primeiro relato, um marinheiro, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, tem sua capacidade de recordação limitada a sete segundos. É como se tudo o que aconteceu depois de 1945 nunca tivesse existido. Como não registra as experiências posteriores a essa data, sente-se eternamente jovem. Na segunda história um dependente de álcool com significativa destruição dos corpos mamilares não se lembra de nada que lhe aconteceu após a manifestação da doença e, como João D., assume variadas personalidades: ao vestir uma camisa branca garante que é médico ou dentista, mas também pode se tornar açougueiro ou barbeiro. O personagem incorpora o papel e se identifica com pessoas, situações e objetos que o circundam.
CENA DIAGNÓSTICA
O médico suspeitou de uma doença neurológica rara, provocada pela perda de uma das funções do lóbulo frontal, área do cérebro que controla o comportamento e exerce censura sobre ações inoportunas. O distúrbio leva o paciente a imitar seu interlocutor e é sempre acompanhado do chamado comportamento de utilitarismo: basta o ambiente oferecer estímulos (como a presença de uma pessoa ou objeto) para que o paciente adapte sua própria personalidade à situação. Se ele encontrar numa sala uma bancada de sapateiro, por exemplo, aproveitará a situação e dirá que trabalha com conserto de sapatos.
Para comprovar a hipótese do distúrbio em decorrência da lesão no lóbulo frontal, a equipe médica decidiu submeter João a um teste pouco convencional cujo objetivo era compreender a imitação e determinar por quanto tempo esse comportamento permaneceria. O quadro clínico inusitado exigiu criatividade dos profissionais, que decidiram, com a autorização de Lúcia, “encenar” uma situação que lhes permitisse entender as reações do paciente. |
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| Daniela Ovadia é jornalista.– Tradução de Tatiana Fonseca Oliveira |
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