Reportagem
edição 164 - Setembro 2006
Enigmas do Bocejo
Primal, irreprimível e contagiante, o gesto revela a base evolutiva e neural da empatia e do comportamento inconsciente. Aliás, tente ler sem bocejar.
por Robert R. Provine
Imagine um bocejo. Você alonga os maxilares, abrindo os lábios escancaradamente, toma fôlego profundo seguido por uma expiração mais curta e termina fechando a boca: ahhh... Você acaba de se juntar aos vertebrados do mundo inteiro num dos rituais mais antigos do reino animal.

Os mamíferos e a maioria dos outros vertebrados bocejam: peixes, tartarugas, crocodilos e pássaros. As pessoas começam a bocejar bem cedo - uma evidência de antigas origens. Também chamado de oscitação ou boquejo, o bocejo aparece no fim do primeiro trimestre do desenvolvimento humano pré-natal e é evidente em recém-nascidos.

Trata-se de tema de grande riqueza para interessados nos mecanismos neurais do comportamento, já que sua natureza simples e sem variação permite uma descrição rigorosa, primeiro passo para a investigação de mecanismos neurais. Essa aplicação do enfoque de "sistemas simples" diz respeito aos seres humanos que se ocupam de suas atividades normais; não há necessidade de usar bactérias, moscas-das-frutas ou nematóides nas pesquisas. Pode-se aprender muito experimentando em si mesmo e observando o colega Homo sapiens.

A esta altura, é possível que o leitor já sinta uma das propriedades mais incríveis do bocejo: seu contágio (ver "Reflexo revelador," Mente&Cérebro, edição 161). A simples leitura ou o pensamento sobre o bocejo pode ser o vetor de uma resposta contagiante. A propagação permite explorar as raízes neurológicas do comportamento social, compreender e estudar expressões faciais, empatia, imitação e a possível patologia dos processos no autismo, esquizofrenia e lesão cerebral.
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Robert R. Provine é professor de psicologia da Universidade de Maryland, Baltimore; é pós-graduado em psicologia e estudou neurociência do desenvolvimento. Pesquisa neurocomportamento e evolução.