Reportagem
edição 164 - Setembro 2006
Enigmas do Bocejo
Primal, irreprimível e contagiante, o gesto revela a base evolutiva e neural da empatia e do comportamento inconsciente. Aliás, tente ler sem bocejar.
por Robert R. Provine
Imagine um bocejo. Você alonga os maxilares, abrindo os lábios escancaradamente, toma fôlego profundo seguido por uma expiração mais curta e termina fechando a boca: ahhh... Você acaba de se juntar aos vertebrados do mundo inteiro num dos rituais mais antigos do reino animal.

Os mamíferos e a maioria dos outros vertebrados bocejam: peixes, tartarugas, crocodilos e pássaros. As pessoas começam a bocejar bem cedo - uma evidência de antigas origens. Também chamado de oscitação ou boquejo, o bocejo aparece no fim do primeiro trimestre do desenvolvimento humano pré-natal e é evidente em recém-nascidos.

Trata-se de tema de grande riqueza para interessados nos mecanismos neurais do comportamento, já que sua natureza simples e sem variação permite uma descrição rigorosa, primeiro passo para a investigação de mecanismos neurais. Essa aplicação do enfoque de "sistemas simples" diz respeito aos seres humanos que se ocupam de suas atividades normais; não há necessidade de usar bactérias, moscas-das-frutas ou nematóides nas pesquisas. Pode-se aprender muito experimentando em si mesmo e observando o colega Homo sapiens.

A esta altura, é possível que o leitor já sinta uma das propriedades mais incríveis do bocejo: seu contágio (ver "Reflexo revelador," Mente&Cérebro, edição 161). A simples leitura ou o pensamento sobre o bocejo pode ser o vetor de uma resposta contagiante. A propagação permite explorar as raízes neurológicas do comportamento social, compreender e estudar expressões faciais, empatia, imitação e a possível patologia dos processos no autismo, esquizofrenia e lesão cerebral.
Felizmente as fronteiras científicas estão próximas e são relativamente pouco povoadas, resultado de nossa tendência de subestimar e descuidar do que parece simples. Em alguns casos, a ciência pode precisar de não mais que um cronômetro, bloco de notas e lápis. O acesso fácil ao bocejo torna-o ideal para o que chamo de "neurociência de calçada", enfoque que requer o uso de baixa tecnologia para estudar o cérebro e o comportamento, baseado na experiência do dia-a-dia. Em nosso meio, é fácil se deixar seduzir pela "grande ciência" e menosprezar o que parece comum.

Quando comecei a estudar o tema nos anos 80, foi difícil convencer alguns de meus alunos de pós-graduação dos méritos da "ciência do bocejo". Embora pareça extravagante, minha decisão de investigar o assunto foi uma extensão lógica de minha pesquisa em neurociência do desenvolvimento. Como questão neurocomportamental, não há grande diferença entre o bater de asas dos pássaros e o agitar de rosto e de corpo dos bocejadores humanos.

Espirros e Orgasmos
O verbo inglês "yawn" (bocejar) deriva do inglês antigo ganien ou ginian, que significa abrir bastante. Mas além de escancarar a boca, o bocejo tem significativas características de fácil observação e análise. Colecionei bocejos para estudo recorrendo à resposta contagiante. Pelos idos dos anos 80, pedi a indivíduos sentados numa câmara de isolamento que "pensassem no bocejo", apertassem um botão no início e o mantivessem apertado até acabar de expirar no final do bocejo. (O auto-relato foi empregado porque o gesto é inibido em indivíduos que acreditam estar sendo observados.)

Eis algumas das coisas que aprendi. O bocejo é altamente estereotipado, sua forma e duração variam. É um ótimo exemplo do "padrão fixo de ação" instintivo do estudo clássico de comportamento animal, ou etologia. Não é reflexo, resposta breve, rápida e proporcional a um simples estímulo. Uma vez iniciado, porém, progride com a inevitabilidade de um espirro; dura, em média, seis segundos. Não existem meios-bocejos, um exemplo da "intensidade típica" dos padrões fixos de ação e um motivo pelo qual não é possível sufocá-lo. Eles chegam em surtos, com intervalo altamente variável de aproximadamente 68 segundos. Não há relação entre freqüência e duração; os produtores de bocejos curtos ou longos não compensam com maior ou menor freqüência.
Mecanismos das respostas contagiantes envolvem uma espécie de detector neurológico: reação em cadeia sincroniza a fisiologia do grupo
Existem três variantes de bocejo usadas para testar hipóteses sobre forma e função. Se estiver bocejando agora, observe em você mesmo e tire suas próprias conclusões sobre o mecanismo de base. Nem todo mundo, porém, tem o mesmo entusiasmo por tal auto-experimentação. Mesmo os entusiastas julgam conveniente realizar esses experimentos sozinhos.

Bocejo de nariz fechado: ao perceber o início do bocejo, aperte o nariz para fechá-lo. A maioria das pessoas diz que consegue executar bocejos de nariz fechado perfeitamente normais. Isso indica que a inspiração no início de um bocejo e a expiração no término dispensam as narinas - a boca oferece passagem de ar suficiente. Testemos agora algumas proposições sobre o papel da boca e da mandíbula.

Bocejo de dentes cerrados: ao perceber o início do bocejo, cerre os dentes, mas inspire normalmente pelos lábios abertos e dentes apertados. Essa variante dá a sensação de ficar preso no meio do bocejo. Mostra que a abertura da boca é um componente essencial do complexo programa motor do bocejo; a menos que seja realizada, o programa não continuará até o fim. Além disso, revela que o boquejo é mais que respiração profunda porque, ao contrário da respiração normal, a inspiração e a expiração não podem ser tão bem realizadas através dos dentes cerrados quanto pelo nariz.

Bocejo nasal: essa variante testa a adequação da vias aéreas nasais para sustentar o bocejo. Ao contrário da respiração normal, que é igualmente bem realizada pela boca ou pelo nariz, o bocejo é impossível através apenas da inspiração nasal. Assim como o de dentes cerrados, o nasal fornece a sensação insatisfatória de ficar em meio ao bocejo. Inspiração pela boca é um componente essencial do padrão motor do bocejo. Já a expiração pode ser feita igualmente bem pelo nariz ou pela boca.
O movimento generalizado requer mais que manobras das vias aéreas e abertura da boca: os músculos faciais se alongam; a cabeça inclina-se para trás e os olhos se estreitam ou se fecham; há produção de lágrimas e saliva; no ouvido médio, as trompas de Eustáquio se abrem e são desencadeados muitos outros atos cardiovasculares, neuromusculares e respiratórios. Talvez o bocejo tenha componentes em comum com outros comportamentos. Por exemplo: uma espécie de "espirro lento" seria bocejo ou espirro seria um "bocejo rápido?" Os dois têm características respiratórias e motoras comuns - entre elas a abertura da boca, o fechamento dos olhos e a inclinação da cabeça.

Ao examinar outros tipos de comportamento que usam os mesmos componentes, poderíamos questionar se a expressão facial semelhante ao bocejo durante o clímax sexual sugere que os dois atos têm uma mesma herança neurocomportamental. Essa proposição não é tão rebuscada quanto parece já que o bocejo é desencadeado por androgênios (hormônios masculinizantes) e ocitocinas (hormônios femininos) e está associado a outros agentes e atos relacionados ao sexo. O pesquisador Wolter Seuntjens, da Universidade Vrije, em Amsterdã, encontrou essas conexões ao fazer um levantamento da literatura surpreendentemente extensa, porém dispersa, sobre o tema para sua dissertação em história da arte, publicada no ano passado. Entre mamíferos, em geral os machos são os que mais bocejam. Na espécie humana, porém, ambos os sexos o fazem com igual freqüência e são sexualmente receptivos em qualquer ocasião. Em ratos, a maioria dos agentes químicos que causam o bocejo e o espreguiçamento provocam também a ereção. Embora antidepressivos como clomipramina (Anafranil, Clomipran e Fenatil, entre outros) e fluoxetina (presente em medicamentos como Prozac, Daforin e Fluxene) geralmente inibam o desejo e desempenho sexuais, em algumas pessoas eles deflagram o interessante efeito colateral de produzir bocejos que terminam por desencadear o orgasmo.

Embora esses casos sejam raros e a maioria dos bocejadores não alcance esse tipo de recompensa, estudos comprovam que bocejar realmente provoca uma sensação prazerosa para grande parte das pessoas - o comportamento recebe a nota 8,5 numa escala de dez pontos (1 = ruim, 10 = boa). Dadas as semelhanças entre orgasmo, bocejo e espirro (com similaridades entre as expressões faciais típicas, inclusive), é perfeitamente razoável referir-se à resolução dos três atos como um "clímax". A frustração de ser incapaz de atingir esse ápice e resolver a tensão sexual crescente seria semelhante à sensação de insatisfação de um bocejo ou de um espirro frustrado? O impulso crônico, apesar da incapacidade de bocejar, é perturbador para quem o experimenta.

O boquejo e o espreguiçamento têm propriedades em comum e podem ser executados juntos como partes de um complexo motor global. Mas nem sempre eles ocorrem simultaneamente - as pessoas geralmente bocejam quando espreguiçam, mas nem sempre espreguiçam ao bocejar, especialmente antes de dormir. Estudos realizados no início dos anos 80 revelam não apenas o bocejo, mas uma ligação entre o bocejar e o espreguiçar já no fim do primeiro trimestre da vida intra-uterina.
A demonstração mais extraordinária da ligação entre esses dois comportamentos é perceptível em muitos pacientes paralisados de um lado do corpo por causa de lesão cerebral provocada por derrame. Em 1923, o neurologista britânico Francis Walshe notou que, quando bocejavam, alguns hemiplégicos erguiam e flexionavam automaticamente os braços paralisados: é o que os neurologistas chamam de "resposta associada". O bocejo aparentemente ativa conexões intactas inconscientemente controladas por mecanismos que ligam o cérebro aos motoneurônios da medula que, por sua vez, inervam o membro paralisado. Não se sabe se a resposta associada é um prognóstico positivo para a recuperação, nem se o bocejo é terapêutico para a reinervação ou para a prevenção de atrofia muscular.

A neurologia clínica oferece outras surpresas. Alguns pacientes quase inteiramente destituídos da habilidade de se mover voluntariamente bocejam normalmente. Os circuitos neurais da oscitação espontânea devem estar situados no tronco cerebral perto de outros centros respiratórios e vasomotores, pois o boquejo é realizado por anencefálicos que possuem apenas a medula oblonga. A multiplicidade dos estímulos do bocejo contagiante, em contraste, implica várias regiões cerebrais superiores.

O contágio
Já se sabe que a Natureza conspira para disseminar os bocejos. Simplesmente pensar neles os incita. A conhecida propriedade de "infectar" quem está por perto pode ser confirmada com observação cotidiana e experiências científicas. Nos experimentos iniciais para testar o contágio, expus indivíduos a uma série de 30 repetições gravadas em vídeo de um adulto bocejando, com cinco minutos de duração. Os voluntários foram duas vezes mais propensos a bocejar enquanto assistiam à gravação (55%) que quando acompanhavam uma série comparável de sorrisos (21%). Ao contrário da resposta de um reflexo a um estímulo, o incentivo visual não foi seguido por um período de latência curto e previsível; pelo contrário, o bocejo ocorreu durante todo o período de teste de cinco minutos. Para a etologia clássica, a face bocejante funciona como um gatilho, um estímulo de sinal, que ativa um mecanismo inato, capaz de liberar o padrão de ação.

O vídeo do bocejo mostrou igualmente ter grande efeito, quer visto na orientação certa, girado de lado ou de ponta-cabeça. O detector de bocejos dos participantes do estudo não dependia de cor nem de movimento: o vídeo tinha igualmente grande efeito quando visto em preto-e-branco ou em cores, e mesmo quando a imagem do autor bocejando, geralmente animada, era apresentada de forma estática.
Em seguida, testei quais características da face bocejante eram mais eficientes para incitar os demais à mesma ação.
Esperava até conseguir construir um estímulo supranormal - a mãe de todos os estímulos para o comportamento. Foi então que a situação se complicou. A maioria das pessoas supõe incorretamente que a boca aberta é a marca essencial do bocejo. Entretanto, o resultado mostrou que a edição da imagem das faces para ocultar a boca durante a oscitação não foi suficiente para evitar a produção de bocejos - a reação era similar à de quem deparava com o rosto intacto. Fui cético com essa constatação até que dados complementares mostraram que a tentativa de sorrir para evitar bocejos os suscitava em outras pessoas.

Destacada da face, a boca que se abre é um estímulo ambíguo - a pessoa poderia estar gritando ou cantando. Percebemos que observadores parecem responder ao padrão geral da face bocejante e à parte superior do corpo - e não a uma característica facial particular. Portanto, cobrir a boca é um gesto educado, mas inútil, que não evitará contaminação. Mesmo pensar em bocejo os suscitou em 88% dos indivíduos em 30 minutos.

A essa altura, aliás, muitos leitores já perceberam que ler sobre bocejos os desencadeia. Quando participaram do teste, 30% dos indivíduos que leram um artigo sobre o bocejo por cinco minutos relataram bocejos durante esse período; já no grupo-controle que leu um artigo sobre soluço, apenas 11% boquejaram. Quando o critério foi afrouxado e incluiu aqueles que bocejaram ou se sentiram tentados a bocejar, a diferença entre as situações de bocejo e de soluço aumentou para 75% e 11%, respectivamente.

Meu plano de desenvolver um estímulo ultrapotente para o bocejo foi abandonado quando descobri a natureza global de seus gatilhos. Percebi que sintetizar a boca se movimentando no ângulo exato, que se abrisse e fechasse no ritmo correto, não produziria o estímulo perfeito. A observação de uma pessoa que boceja naturalmente, por si só já faz o serviço muito bem. Além disso, estímulos normalmente neutros podem adquirir propriedades indutoras de bocejo por meio de associação. Minha reputação de investigador do tema me conferiu um tipo curioso de carisma - tornei-me um estímulo para o bocejo.

Raízes da Socialidade
Bocejos são reproduzidos por observadores que os passam de um para o outro em uma reação em cadeia. Isso sincroniza o estado comportamental e fisiológico do grupo. O mecanismo de base da resposta contagiante provavelmente envolve alguma espécie de detector neurológico, mas a gama de estímulos produtores de bocejos indica que esse "radar" pode ter ajustes amplos. O bocejo que se propaga definitivamente não se relaciona ao desejo consciente. Ninguém diz: "Acho que bocejarei exatamente como o fez aquela pessoa" - abrimos a boca quer queiramos ou não. O contágio social é neurologicamente programado e típico da espécie, embora muitas vezes negligenciado por cientistas sociais, que geralmente enfatizam o papel do ambiente em moldar o comportamento dos indivíduos. O envolvimento de um comportamento universal humano controlado inconscientemente alarga a discussão sobre o funcionamento das relações sociais.
Consideremos a suposta imitação das expressões faciais pelos recém-nascidos, descrita pela primeira vez por Andrew Meltzoff e M. Keith Moore em artigo de 1977. Esse fenômeno continua a ser investigado como processos cognitivos de ordem superior; acreditamos que os bebês com poucos dias de vida realizam um processamento impressionante, imitando as faces que vêem. O riso contagiante, base dos risos televisivos pré-gravados, é outro caso contundente de comportamento pseudo-imitativo controlado inconscientemente.

O caminho da investigação torna-se um desafio um pouco maior quando se muda dos fatos do comportamento para a especulação sobre os mecanismos de base. Um renovado interesse no comportamento que se propaga, independentemente de nossa vontade, foi estimulado pela descoberta dos neurônios-espelho, implicados numa variedade de atividades imitativas que vão desde controle motor até empatia. Essa classe neural está ativa quando um ato como o de preensão é executado e quando esse mesmo gesto é observado em outros.

Mas os neurônios-espelho podem ser deficientes como mecanismo de bocejo contagiante porque sua atividade não deflagra, necessariamente, um ato motor imitativo.

Recentemente Steven Platek, da Universidade Drexel, e os colegas Feroze B. Mohamed, da Universidade Temple, e Gordon G. Gallup Jr., da Universidade Estadual de Nova York, usaram imagens de ressonância magnética funcional para estudar a atividade em pessoas expostas a bocejos. Eles constataram uma atividade singular nas regiões cerebrais do cingulado posterior e pré-cúneo - áreas não associadas à atividade-espelho. Essas regiões estão, pelo contrário, ligadas a funções de autoprocessamento, como a auto-referência e a memória autobiográfica. De maneira inconsciente, alguém que "pega" um bocejo pode estar expressando uma forma primitiva de empatia.

A sociabilidade inerente no bocejo pode fornecer um marcador inédito e uma ferramenta diagnóstica para respostas empáticas. O fato é que pouco se conhece sobre a contagiosidade fora da espécie humana. Ano passado, contudo, James Anderson, da Universidade de Stirling, na Escócia, Masako Myowa-Yamakoshi, da Universidade da Prefeitura de Shiga, e Tetsuro Matsuzawa, da Universidade de Kyoto, Japão, demonstraram bocejo contagiante em chimpanzés adultos, primata que exibe empatia e percepção rudimentares de si (conforme observadas em tarefas de reconhecimento em espelho). O contágio, se presente, pode ser mais frágil nos macacos e em outros animais com relativa deficiência nessas características.
Embora o bocejo espontâneo seja realizado por fetos humanos no útero, James Anderson e sua colega Pauline Meno, de Stirling, detectaram bocejo contagiante em crianças somente vários anos depois do nascimento. Isso, combinado com a raridade em outras espécies, sugere que esse tipo de comportamento tenha origem evolutiva distinta e relativamente recente.

Em certos transtornos neurológicos e psiquiátricos, entre os quais a esquizofrenia e o autismo, o paciente tem comprometimento da capacidade de inferir estados mentais dos outros. A avaliação do bocejo contagiante nesses transtornos oferece recompensas substanciais. Platek e colegas constataram que pessoas clinicamente não doentes, mas esquizotípicas - com dificuldade para empatizar com emoções, desejos, intenções e necessidades alheios -, têm menor suscetibilidade ao bocejo contagiante. O psiquiatra canadense Heinz Lehmann chegou a afirmar que aumentos de bocejo (o contagiante não foi examinado especificamente) poderiam prever recuperação na esquizofrenia.

Sabe-se que também pessoas em coma vigilante (condição em que o paciente está acordado e consciente mas não pode se mover ou se comunicar) bocejam, mas não há informações sobre se podem fazê-lo por contágio ou até que ponto essa habilidade está correlacionada a seu estado e prognóstico neurológicos.

O julgamento do contágio como evidência de um traço de sociabilidade precisa, portanto, aguardar pesquisas adicionais. A contagiosidade de atos típicos da espécie como o bocejo e de vocalização como o riso e o choro pode tanto representar um substrato neurológico primitivo do comportamento social quanto estar confinada àquele comportamento específico e não refletir um processo social mais geral.

Controle de soluços
Não se pode bocejar para obedecer a um comando: essa observação é a melhor evidência do controle inconsciente desse ato. Ele ocorre espontaneamente ou como uma resposta, mas uma intensa consciência de si mesmo, a certeza de estar sendo observado reprime o bocejo. Tive evidências experimentais dessa inibição quando comecei a estudar o contágio. Elas justificaram o uso do auto-relato nos experimentos. Quando meus estudos do bocejo passaram a atrair atenção da mídia, tive a experiência de ver a inibição entrar em cena.
Uma equipe de televisão apareceu um dia para gravar uma entrevista. Contra meu conselho, o produtor do programa quis recriar meu experimento: metade de uma grande classe de alunos lia um artigo sobre o bocejo enquanto a outra metade lia uma passagem sobre o soluço. Normalmente, o efeito do artigo sobre bocejo é significativo e usado como demonstração de contágio em aulas em universidades.

Como previ, porém, a demonstração foi um fracasso. Com as câmeras rodando enquanto os estudantes liam, observou-se somente uma minúscula fração do número habitual de bocejos. A equipe realizou uma variante não-intencional, mas informativa, de minha pesquisa original, mostrando o efeito poderoso da inibição social sobre o bocejo. Mesmo bocejadores altamente motivados e prolíficos que se apresentaram como voluntários para estar em rede nacional de televisão pararam de bocejar quando colocados diante da câmera. É incrível que a inibição social tenha ocorrido inconscientemente, sem esforço dos participantes para evitar comportamento, em geral, considerado descortês ou impróprio.

Soluços - também inconscientes, embora não contagiantes - também podem ser inibidos diante de observadores. Quando o antigo e o novo, o inconsciente e o consciente competem pelo canal de expressão do cérebro, o mecanismo consciente mais moderno domina, suprimindo seu rival inconsciente mais antigo.

É bem pouco o que se conhece para que este artigo termine com um floreio intelectual fascinante e uma "Grande Teoria Unificada do Bocejo". Vejo, porém, um grande potencial no uso do bocejo para desenvolver e testar teorias da mente e para melhor compreender certas neuro e psicopatologias.

Lágrimas e verniz cultural
O bocejo apareceu cedo na história dos vertebrados, e a contagiosidade evoluiu bem depois. Trouxe conseqüências ao desenvolvimento humano, entre elas a abertura da tuba auditiva, lacrimação, inflação dos pulmões, espreguiçamento e sinalização de sonolência.

Fico impressionado ao constatar que o bocejo está associado com a mudança de estado comportamental - da vigília ao sono, do sono à vigília, do estado de alerta para o tédio, a iminência de um ataque, excitação sexual, a mudança de um tipo de atividade para outro. Trata-se de um ato vigoroso, generalizado, que pode agitar nossa fisiologia e facilitar tais transições, com o ato motor tornando-se o estímulo para a resposta contagiosa de evolução mais recente.

Consideremos o povo bacairi da região central do Brasil como observado por seu primeiro visitante europeu, o etnólogo do século XIX Karl von den Steinen. Irenäus Eibl-Eibesfeldt lembra em seu livro de 1975, Ethology, o relato de Steinen: "Se parecia que estavam fartos de toda a conversa, eles começavam a bocejar descaradamente e sem colocar a mão na boca.

Que o reflexo prazeroso era contagioso não poderia ser negado. Eles se levantavam e saíam um depois do outro até que sobrava só eu com minha ordem do dia". Entre todos os membros de nossa espécie, a reação em cadeia do bocejo contagiante sincroniza o comportamento e também o estado fisiológico de nossa tribo. O bocejo é um lembrete de que o comportamento antigo e inconsciente move-se furtivamente debaixo do verniz de cultura, racionalidade e linguagem, continuando a influenciar nossa vida.

- Tradução de Vera de Paula Assis
Crenças e Comprovações
Embora freqüentemente equivocado, o senso comum propõe questões interessantes, resultantes de séculos de observações informativas sobre a natureza humana. Por vezes, a ciência confirma e amplia as crenças sobre o bocejo, mas meus colegas e eu tivemos muitas surpresas.

Bocejamos quando entediados: um ponto para a cultura popular. Pessoas enfastiadas realmente bocejam muito. Para induzir o tédio, pedi a um grupo de voluntários que assistissem a um padrão de teste no televisor por 30 minutos; para aqueles que serviram de controle, dei uma dose de meia hora de videoclipes. Não importa o que se sinta sobre esse tipo de programa, as pessoas os acharão menos enfadonhos que o padrão imutável de teste com barra de cores. Resultado: as pessoas que acompanharam os videoclipes bocejaram cerca de 70% menos que as do outro grupo. Mas a reação não é exclusiva dos enfastiados; existem evidências empíricas informais de bocejo entre pára-quedistas antes do primeiro salto, de atletas olímpicos nos minutos que antecedem a competição, do violinista prestes a entrar no palco para executar um concerto e de cães na iminência do ataque.

Bocejamos quando estamos com sono: como esperado, os indivíduos que registraram seus boquejos num diário durante uma semana confirmaram que as pessoas realmente bocejam mais quando estão com sono, particularmente na primeira hora depois de acordar e, em segundo lugar, quando se aproxima o horário em que costumam dormir. Surgiu uma surpresa dos dados adicionais sobre o espreguiçamento, também registrado. Depois de despertar, os participantes da pesquisa bocejavam e espreguiçavam simultaneamente. Mas, antes de dormir, a maioria apenas bocejava. A ligação bocejo-espreguiçamento é observada também em cães e gatos.

Bocejamos por causa do alto nível de dióxido de carbono ou da falta de oxigênio no sangue ou no cérebro: esse tipo de crença, não confirmada, é repetido com tamanha freqüência que parece adquirir vida própria, sendo apresentado na mídia e até em palestras em escolas de medicina.

Contudo, o único teste sobre essas hipóteses, o qual realizei há 18 anos, rejeitou-as. Respirar níveis de dióxido de carbono 100 vezes maiores que a concentração do ar (3% ou 5% de CO2 contra os 0,03% habituais de CO2) não incrementou o número de bocejo, embora os voluntários de fato tenham aumentado drasticamente a freqüência respiratória e o volume corrente. Além disso, respirar oxigênio puro não inibiu o bocejo.

Embora a respiração e o bocejo envolvam atos respiratórios e sejam produzidos por programas neuromotores, esses programas são distintos e podem ser modulados independentemente. Uma tarefa de exercícios, por exemplo, que fez os indivíduos ficar enfurecidos e ofegantes não afetou sua taxa de bocejos - independentemente de quanto a respiração se torna difícil.
Contagious yawning in chimpanzees. J. R. Anderson, M. Myowa-Yamakoshi e T. Matsuzawa, em Proceedings of the Royal Society of London B, vol. 271 (Supl. 6), págs. S468-S470, 2004.

Yawning: relation to sleeping and stretching in humans. R. R. Provine, H. B. Hamernik e B. C. Curchack, em Ethology, vol. 76, págs. 152-160, 1987.

Yawning as a stereotyped action pattern and releasing stimulus. R. R. Provine, em Ethology, vol. 72, págs. 109-122, 1986.
Robert R. Provine é professor de psicologia da Universidade de Maryland, Baltimore; é pós-graduado em psicologia e estudou neurociência do desenvolvimento. Pesquisa neurocomportamento e evolução.
© Duetto Editorial. Todos os direitos reservados.