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Reportagem

Entre a euforia e a depressão

Diversos escritores famosos eram portadores de transtorno bipolar; seus altos e baixos extremos deram origem a grandes clássicos

março de 2008
Moacyr Scliar
REPRODUÇÃO
Doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, freqüentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. Ora, essas características podem muito bem ser aplicadas à doença mental, a tal ponto que, para alguns artistas, são inseparáveis. O grande pintor norueguês Edvard Munch (autor do famoso O grito) era psicótico; admitia-o, mas temia que o tratamento pudesse reduzir ou suprimir seu potencial. A pergunta, pois, se impõe: existe um denominador comum entre criatividade e doença mental? A dúvida não é de hoje. Já havia sido formulada por Aristóteles, no famoso Problema XXX: “Por que razão todos os que foram homens de exceção no que concerne à filosofia, à poesia ou às artes são manifestamente melancólicos?”.

Duas doenças têm sido associadas ao processo de criação artística: a esquizofrenia e a doença bipolar. No caso específico da literatura, contudo, a conexão parece se limitar aos bipolares. O processo de elaboração mental de esquizofrênicos, com freqüência manifesto nas artes plásticas, como mostra a notável coleção de obras de pacientes reunida por Nise da Silveira, parece ser alheio ao da criação literária, já que implica uma dificuldade de interação com o mundo. Diferentemente do jornalismo, a essência da literatura não reside na comunicação, mas é preciso um mínimo de diálogo entre escritor e leitor. No caso do bipolar essa comunicação atende a uma necessidade. Como diz o psiquiatra inglês Anthony Storr em The dynamics of creation (A dinâmica da criação), os bipolares precisam de atenção e de aprovação, como os escritores.“Read me, do not let me die”(“Leia-me, não me deixe morrer”), implora a poeta americana Edna St.Vincent Milay (1892-1950). O reconhecimento de leitores, mesmo que poucos – Gustave Flaubert dizia que 100 leitores eram para ele mais que suficientes –, representa um reforço na auto-estima.
As fases da doença bipolar favoreceriam o processo de criação literária, uma vez que correspondem à alternância característica da atividade do escritor: um período de “recolhimento”, de elaboração de idéias, seguido de um período de produção (inspiração e transpiração). É claro que isso só funciona nos casos mais moderados, em que a mania não é acompanhada de manifestações agressivas, mas é, antes, aquilo que se conhece como hipomania, um estado no qual a pessoa se sente “energizada” e pode trabalhar com entusiasmo.

Honoré de Balzac, para Storr, era um bipolar típico. Nas fases mais produtivas, o escritor jantava às 6 da tarde, dormia até a 1 da manhã, levantava, trabalhava durante toda a madrugada, parando para tomar café, descansar e receber visitas. Não é de admirar que tenha escrito a gigantesca obra que é a Comédia humana. Nos períodos depressivos, contudo, pensava em suicídio, fim de escritores como Virginia Woolf e Ernest Hemingway.

A escritora inglesa teve uma vida atormentada por surtos depressivos que pareciam não afetar sua criatividade mas a levaram a entrar no rio Ouse com pedras nos bolsos de seu casacão para se afogar. Já Hemingway viveu numerosas aventuras pelo mundo, escreveu obras de enorme sucesso, mas tinha de lutar sempre contra a depressão, que também o levou à morte. E eles não foram os únicos. Entre os escritores diagnosticados – em geral depois de mortos – como bipolares estão Hans Christian Andersen, F. Scott Fitzgerald, Nicolai Gógol, Graham Greene, Henrik Ibsen, Joseph Conrad, Herman Melville, Mary Shelley e Robert L. Stevenson. A pergunta de Aristóteles não foi ainda plenamente respondida. Mas aceitar que doença mental e talento são compatíveis já é um grande progresso.