Reportagem
edição 198 - Julho 2009
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Exames de neuroimagem são confiáveis?
Artigo assinado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade da Califórnia em San Diego sugere que boa parte dos estudos de neurociência cognitiva que utilizam ressonância magnética funcional (fMRI) pode estar comprometida por análises estatísticas inadequadas que alteram seus resultados
por Luciana Christante
REPRODUÇÃO
CRIADA PELO ANATOMISTA alemão Franz Gall (1758-1828), a frenologia entusiasmou cientistas e leigos por pelo menos três décadas
[continuação]

Outro estudo também de 2008, publicado na revista Cognition, demonstrou que as neuroimagens conferiram mais credibilidade a notícias, mesmo quando elas continham conclusões que beiravam o absurdo. Tanto quanto a maioria dos jornalistas, os leitores não têm ideia de que a imagem obtida por fMRI não é direta (como uma radiografia) e muito menos individual, já que se trata do resultado de uma compilação dos dados coletados em todos os participantes do experimento (em geral de 10 a 20), e que passou por um pesado processamento computadorizado até se tornar um sujeito virtual “médio”. Variações individuais, obviamente, são reduzidas a zero.

Com o surgimento de empresas como a No Lie MRI, em San Diego, que diz oferecer “métodos não enviesados a para detecção da mentira e outras informações armazenadas no cérebro” a corporações, governos e advogados, não é de espantar que alguns especialistas em bioética já estejam preocupados. Em artigo publicado na Nature Reviews Neuroscience em fevereiro de 2005, Eric Racine, do Centro de Ética Biomédica da Universidade Stanford, disseca o deslumbramento pelo neuroimageamento na sociedade atual em três fenômenos inter-relacionados: neurorrealismo, neuroessencialismo e neuropolítica.

Segundo Racine, o neurorrealismo reflete uma forma acrítica na qual a pesquisa com fMRI é tomada como uma validação ou invalidação de nossa visão ordinária do mundo, “como se a neuroimagem fosse uma 'prova visual' da atividade cerebral, a despeito da enorme complexidade da aquisição de dados e de processamento da imagem”, escreve. Essa percepção abre caminho para o neuroessencialismo, segundo o qual a subjetividade e a identidade pessoal são reduzidas ao cérebro, que, por sua vez, ganha o status de sujeito em sentenças muito comuns na imprensa, do tipo: “Cérebro pode apagar memórias indesejadas”, “Como o cérebro aprende”, “O cérebro deprimido” ou “Cérebro feminino é mais vulnerável ao álcool”. Por fi m, a neuropolítica, que se apoia nos dois conceitos anteriores, descreve tentativas de usar os resultados dos estudos de fMRI para promover agendas políticas de certos grupos interessados em combater problemas sociais, quase sempre com viés moralista, como a violência, a pornografia, a homossexualidade.
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Luciana Christante é farmacêutica e jornalista científica.