Reportagem
  
edição 199 - Agosto 2009
Henry Gustav Molaison - O homem sem lembranças
Um acidente, que transformou a memória de um americano comum em um grande vazio, deu origem a conhecimentos científicos fundamentais nos últimos 50 anos
por Luciana Christante
ILUSTRAÇÃO DE ARTUR LOPES
A história de um dos mais célebres pacientes das neurociências é marcada por uma grande ironia. Uma tragédia particular, que transformou a memória de um homem saudável em um campo vazio, acabou dando origem a conhecimentos engendrados pela ciência nos últimos 50 anos. As informações explicam boa parte do que se sabe atualmente sobre como o cérebro destila o fluxo do tempo para converter presente em passado. O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto escreveu que “é preciso cultivar o deserto como um pomar às avessas”. Foi o que aconteceu com o americano Henry Gustav Molaison, mais conhecido como H.M. – o adágio poético que se concretizou em realidade científica.

Em 1933, o caminho do pequeno Henry, então com 7 anos, foi atravessado violentamente por uma bicicleta, em Hartford, capital do estado americano de Connecticut. Depois da queda e da forte batida da cabeça que o deixou inconsciente por cerca de cinco minutos, o menino pareceu recuperado e seguiu a vida normalmente. Convulsões leves começaram a aparecer três anos depois, mas ninguém as associou ao acidente, já que três de seus primos paternos de primeiro grau sofriam de epilepsia. A primeira convulsão intensa ocorreu no dia em que o rapaz completava 16 anos. Daí para frente as crises só pioraram em gravidade e frequência. Aos 27 anos, eram cerca de dez por semana, obrigando-o a deixar o emprego numa fábrica de automóveis. Medicamento algum surtia efeito, mesmo em altas doses.

CAMINHO SEM VOLTA
Se a cirurgia a que foi submetido em 1953 de fato acabou com o tormento das convulsões, em compensação, aniquilou a capacidade de H.M. de gravar novas memórias, o que foi transformando as remanescentes, ao longo das décadas seguintes, num conjunto cada vez menor de lembranças remotas e desbotadas. “Agora mesmo, eu me pergunto, será que disse ou fiz alguma coisa errada? Veja você, nesse momento tudo parece claro para mim, mas e o que acabou de acontecer? Isso me preocupa. É como acordar de um sonho. Eu simplesmente não lembro”, disse Molaison certa vez.
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Luciana Christante é farmacêutica e jornalista científica.