Reportagem
  
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Ilusões móveis
Ao “enganar” neurônios especializados em detectar estímulos que se deslocam, certas imagens nos fazem perceber movimento onde ele não existe
por Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandran
© DENISE KAPPA/123RF
OP ART, nos anos 60, tinha como foco principal criar ilusões de movimento
[continuação]

Para explorar a percepção do movimento, é comum os cientistas realizarem testes com filmes muito curtos, com no máximo dois quadros de duração. Nesses filmes, no quadro um há uma grande matriz de pontos pretos dispostos de forma aleatória sobre um fundo cinza. Se, no quadro dois, você deslocar toda a matriz ligeiramente para a direita, verá uma porção de pontos saltando para a direita – isso ativa diversos neurônios de detecção de movimento em paralelo. Esse fenômeno, chamado movimento phi, é a base para os filmes, onde nenhum movimento “real” existe, apenas uma sucessão de fotos estáticas.

Prosseguindo no mesmo experimento: se no segundo quadro você deslocar os pontos para a direita e também reverter o contraste de todos os pontos de maneira que eles fiquem brancos sobre um fundo cinza (em vez de pretos sobre cinza), verá o movimento na direção oposta – uma ilusão descoberta pelo psicólogo Stuart Anstis, hoje na Universidade da Califórnia em San Diego. Esse efeito é conhecido como phi reverso, mas prefi ro chamá-lo de efeito Anstis-Reichardt, em homenagem aos pesquisadores da visão que primeiro o exploraram. (A segunda pessoa foi Werner Reichardt, do Instituto Max Planck para Cibernética Biológica, em Tübingen.) Agora sabemos que esse paradoxal movimento reverso ocorre por causa de certas peculiaridades na maneira como os neurônios de detecção do movimento, chamados detectores Reichardt, operam em nossos centros visuais.

Como os neurônios de detecção de movimento são “configurados” para identificar a direção do movimento? Cada um deles recebe sinais de seu campo receptor: uma seção da retina, a camada de tecido neural que recobre internamente o fundo do globo ocular. Quando ativado, um grupo de receptores– por exemplo, no lado esquerdo do campo receptor – envia um sinal para a detecção de movimento, mas o sinal é fraco demais para ativar o neurônio que detecta movimento. Um grupo adjacente de receptores retinianos, no lado direito do campo receptor, também envia um sinal para o mesmo neurônio, mas, de novo, o sinal não é forte o suficiente.

SOMANDO FORÇAS

Agora imagine que, entre a primeira região (esquerda) e o neurônio detector de movimento, seja inserido um “circuito de atraso”. Do lado direito, nada muda. Assim, se o alvo se mover para a direita no campo receptor, a atividade da segunda região da retina irá chegar ao neurônio detector de movimento ao mesmo tempo que o sinal retardado da região esquerda. Juntos, os dois sinais irão estimular o neurônio de maneira adequada para que ele dispare. Tal arranjo exige que os sinais sejam processados no circuito com certo atraso para garantir a especificação da direção e da velocidade.
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Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandran São neurocientistas, membros do Centro para o Cérebro e Cognição da Universidade da Califórnia em San Diego