Reportagem
  
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Ilusões móveis
Ao “enganar” neurônios especializados em detectar estímulos que se deslocam, certas imagens nos fazem perceber movimento onde ele não existe
por Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandran
REPRODUÇÃO
RECORTE SEM COR produz o mesmo efeito, mas com menor intensidade
[continuação]

Isso, porém, é apenas parte da história. Temos de assumir também que, por alguma razão ainda não compreendida, quadros parados como os das páginas 80 e 83 produzem ativação diferencial dentro do campo de recepção de movimento, o que resulta na ativação dos neurônios de movimento. O arranjo peculiar de alguns parâmetros da imagem, como contraste, em cada subregião da mesma, pode ser crucial para a ativação “artificial” dos detectores de movimento. O resultado final é que seu cérebro é enganado e vê movimentos onde eles não existem.

Por fim, sabe-se também que imagens com certa repetição e regularidade estimulam grande número de detectores de movimento em paralelo, de forma que a impressão subjetiva é exacerbada. Um pequeno recorte desse quadro é suficiente para gerar um movimento perceptível, embora a imagem na íntegra produza uma ilusão bem mais pronunciada (ver ilustração acima). Qualquer pessoa pode realizar alguns experimentos bem simples: a ilusão é mais forte com dois olhos do que com um? Quantas serpentes são necessárias para que as vejamos se contorcendo?

Não se compreende totalmente como imagens estáticas criam impressões irresistíveis de movimento de uma forma quase mágica. Sabemos, no entanto, que elas ativam detectores de movimento no cérebro. Essa idéia foi testada fisiologicamente por meio da gravação da atividade de neurônios de duas áreas do cérebro de macacos: o córtex visual primário (V1), que recebe sinais da retina (depois de terem sido retransmitidos pelo tálamo), e a área temporal média (MT), na lateral do cérebro, que é especializada na visualização de movimento. (Danos à MT causam cegueira de movimento; objetos que se movem aparecem como uma sucessão de objetos estáticos, como se estivessem iluminados por uma luz estroboscópica.) A questão é: “As imagens estáticas como as serpentes girando ‘enganam’ os neurônios detectores de movimento?” A resposta inicial parece ser sim, como foi mostrado numa série de experimentos publicados em 2005 pela neurocientista Bevil R. Conway, da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard.

Assim, por meio do monitoramento da atividade de neurônios detectores de movimento em animais e do estudo da percepção humana com engenhosos quadros projetados, tais como o de Kitaoka, os cientistas estão começando a entender os mecanismos cerebrais especializados na visão das coisas que se movem. Do ponto de vista evolutivo, essa capacidade tem sido um recurso de sobrevivência valioso que funciona como um sistema de aviso antecipado para atrair atenção – seja para detectar presa, predador ou companheiro (os quais se movem, diferentemente de pedras e árvores). É uma prova de como a ilusão pode abrir caminhos para a compreensão da realidade.
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Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandran São neurocientistas, membros do Centro para o Cérebro e Cognição da Universidade da Califórnia em San Diego