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Reportagem

Mistérios do cérebro

Coleção com quatro volumes, ilustrada com quase mil imagens, traz informações detalhadas sobre estrutura, funcionamento e transtornos neurológicos

outubro de 2009
SANDRA BAKER/GETTY IMAGES
Hoje é consenso que a função cerebral mais básica é manter o restante do corpo vivo. Os processos envolvidos nessa tarefa, entretanto, são extremamente complexos. Em meio aos 86 bilhões de neurônios, há os que regulam a respiração, a frequência cardíaca e a pressão arterial; outros controlam a fome, a sede, o apetite sexual e o ciclo do sono. Além disso, administram emoções, percepções e pensamentos que guiam nosso comportamento, dirigindo e executando suas ações. Porém, é difícil investigar o cérebro porque as estruturas são minúsculas e seu funcionamento não pode ser observado a olho nu. Durante muito tempo seu produto mais interessante – a consciência – não foi percebido como um processo físico; portanto, não havia razões para que nossos ancestrais a relacionassem ao cérebro. Mas nos últimos 25 anos, com o advento das técnicas de imageamento os neurocientistas conseguiram produzir um mapa detalhado do que já foi um território inteiramente misterioso.

Para apresentar esse órgão fascinante e revelar o que há de mais recente acerca das descobertas neurocientíficas, envolvendo estrutura, dinâmica e funcionamento, o selo Mente&Cérebro lança uma obra inédita no Brasil: O livro do cérebro. A própria autora, a especialista em cérebro Rita Carter, que assina a obra com outros três colaboradores, reconhece que é possível que o orgão seja tão complicado que nunca o desvendaremos completamente. “A pesquisa neurocientífica prossegue e ninguém sabe qual será o resultado.”Portanto, este trabalho não pode ser tomado como uma descrição definitiva, mas é uma apresentação única desse órgão maravilhoso, tal como o conhecemos hoje, em toda a sua beleza e complexidade”, afirma.
A obra, publicada originalmente em inglês em formato de livro, apresenta logo no início uma visão histórica, esclarecendo como o cérebro foi compreendido ao longo do tempo e as investigações às quais foi submetido. “A coleção, com quatro volumes e quase mil imagens, oferece um panorama amplo, ao mesmo tempo abrangente e detalhado, com linguagem acessível e farto material iconográfico”, afirma o editor da coleção, A. P. Quartim Moraes. O primeiro volume trata da anatomia e funções de cada região neurológica. O segundo aborda os sentidos, o controle dos movimentos e emoções, enfocando as atribuições “sociais” do cérebro (habilidades empáticas, predisposição ao amor e o controle images do interesse sexual). As duas edições já estão nas bancas.

O terceiro volume apresenta quatro grandes temas: mecanismos da memória; pensamento; linguagem e comunicação; e consciência. Já o último trata do envelhecimento cerebral, síndromes, patologias e transtornos. A lista de itens abordados é vasta: doenças de Parkinson e Alzheimer, esclerose, tumores, acidente vascular cerebral (AVC), fadiga crônica, meningite, enxaqueca, distúrbios alimentares, transtornos do humor, esquizofrenia, autismo, entre outros. Esse número traz ainda um glossário de termos técnicos e um índex, o que facilita consultas e pesquisas.
A Coleção O Livro do Cérebro
Do ponto de vista estético, o cérebro humano não parece muito atraente: uma bola de carne enrugada com mais ou menos 1,4 kg e consistência gelatinosa. Não se expande nem se contrai como os pulmões, não bombeia sangue como o coração nem excreta substância visível, como a bexiga. Se cortássemos o topo da cabeça de alguém e o observássemos por dentro, não veríamos absolutamente nada acontecendo. No entanto, é um órgão surpreendente – e, provavelmente, o sistema mais complexo do qual se tem conhecimento. Contém bilhões de neurônios, que não param de enviar sinais uns para os outros, controlando desde funções básicas para a sobrevivência, como a respiração, até complexos raciocínios e emoções. Aliás, se você está lendo este texto agora, é porque inúmeras conexões de seu cérebro estão ativadas. Porém, nem tudo está esclarecido.

Embora já se saiba muito sobre os processos neurais que transformam a informação recebida em experiência subjetiva, como os pensamentos ou as emoções, o fato é que ninguém pode precisar, exatamente, como a atividade elétrica se converte em experiência e aprendizado. Mas é consenso que o “caminho” que a informação segue dentro de nossa cabeça depende do lugar de onde provém. Cada órgão dos sentidos é especializado em lidar com um tipo de estímulo diferente – os olhos são sensíveis à luz; os ouvidos, às ondas sonoras e assim por diante. E respondem aos estímulos de forma muito semelhante: geram sinais elétricos, que são enviados para a fase posterior de processamento. Mas a informação proveniente de cada órgão é encaminhada a uma parte diferente do cérebro – e então elaborada com base em uma via neural. Portanto, o local de processamento dos dados determina que tipo de experiência será criada. Tudo isso em frações de segundo. Até parece ficção científica. Mas é só o cérebro e seus bilhões de neurônios em ação.
CREATIONS/SHUTTERSTOCK

Em conexão com a mente

Durante séculos o conteúdo de nosso crânio foi visto como algo relativamente sem importância. Quando mumificavam os mortos, os egípcios antigos retiravam os cérebros e os jogavam fora, mas preservavam o coração com todo cuidado. Na Antiguidade, o grego Aristóteles acreditava que o cérebro funcionasse como uma espécie de radiador para esfriar o sangue. Já o francês René Descartes dizia que era um tipo de antena pela qual o espírito poderia se comunicar com o corpo.

Até aproximadamente um século, a única evidência de que o cérebro e a mente estivessem conectados derivava de “experiências naturais”: acidentes em que lesões cerebrais desencadeavam sintomas inusitados nos pacientes. Médicos abnegados delineavam as áreas afetadas observando as vítimas vivas – e associavam seus déficits às áreas lesionadas. A pesquisa era marcada pela lentidão das descobertas, já que era necessário esperar que as pessoas morressem para que fosse possível investigar a evidência fisiológica. Como resultado, até o início do século XX, todo o conhecimento sobre a base física da mente poderia ser abrigado em um único volume.

Desde então, avanços científicos e tecnológicos alimentaram uma revolução neurocientífica. Microscópios potentes tornaram possível observar em detalhe a intrincada anatomia cerebral. A compreensão cada vez maior sobre condução elétrica permitiu o reconhecimento das dinâmicas neurológicas e, mais tarde, com o advento da eletroencefalografia (EE G), sua observação e medição. Por fim, o desenvolvimento dos aparelhos de imageamento funcional permitiu que cientistas observassem o cérebro vivo em funcionamento. Nos últimos 20 anos, a tomografia por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês), a ressonância magnética funcional (RMf) e, mais recentemente, a magnetoencefalografia (MEG) possibilitaram a produção de um mapa ainda mais detalhado das funções cerebrais.

Hoje podemos apontar o conjunto de circuitos que mantém nosso processo vital ativo, as células que produzem os neurotransmissores, as sinapses onde os sinais saltam de uma célula para outra e as fibras neurais que – entre tantas outras funções – transmitem dor ou movimentam nossos membros. Já temos informações sobre como os órgãos dos sentidos convertem raios de luz e ondas de som em sinais elétricos e podemos traçar as vias percorridas por eles até as áreas especializadas do córtex que respondem a eles. Sabemos que esses estímulos são pesados, avaliados e transformados em emoções pela amígdala – pequeno e valioso pedaço de tecido em forma de amêndoa situado na profundidade do lobo temporal.

Hoje vemos o hipocampo em pleno processo de retenção de memórias, bem como observamos o córtex pré-frontal fazer um julgamento moral. É possível reconhecer os padrões associados à diversão e à empatia – e mesmo a satisfação de ver a derrota de um adversário. Os resultados dos estudos de imageamento revelam o cérebro como um sistema surpreendentemente complexo e sensível, no qual cada parte influencia quase todas as outras. A cognição sofisticada, executada pelos lobos frontais, por exemplo, garante um feedback que afeta a experiência sensorial – de forma que o que vemos quando observamos um objeto é moldado pela expectativa, assim como pelo efeito da luz que atinge a retina. Por outro lado, a produção mais aprimorada e complexa do cérebro depende de seu mecanismo mais básico. Julgamentos intelectuais, por exemplo, reações corporais percebidas por nós, como emoções; e a consciência pode ser reprimida por uma lesão no modesto tronco encefálico.