Reportagem
  
edição 172 - Maio 2007
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No limite da vida
De onde vêm as estranhas imagens e sensações de “transição para o Além”? Pesquisadores acreditam que, ao se defrontar com o próprio fim, nosso cérebro recorre a estratégias de defesa, produzindo sensações que tornam esse momento menos assustador
por Detlef B. Linke
[continuação]

Naturalmente, as experiências de quase-morte não podem ser explicadas apenas pela forma como os sinais são transmitidos pelos receptores NMDA. No entanto, se considerarmos as funções desempenhadas por eles, é possível estabelecer uma relação com as visões surgidas durante a experiência de quase-morte. Essas terminações nervosas estão ligadas ao sistema opióide, que ajuda o organismo a inibir a dor e contribui para o surgimento da sensação de paz e felicidade nesses momentos.

A impressão de “ausência de limites” – diluição das diferenças entre o sujeito e o ambiente – muitas vezes relatada por aqueles que “retornaram” também pode ser explicada pela atividade dos receptores NMDA. É provável que, em certas circunstâncias, nosso cérebro perca a capacidade de reconhecer objetos como tais quando passa, repentinamente, a abarcar um conceito temporal mais amplo, o que faz com que, em paralelo, o código sinalizador usual das células nervosas perca significados. É possível que a amígdala – núcleo cerebral em forma de amêndoa responsável pelo processamento de emoções como medo e pelas manifestações de agressividade – também desempenhe um papel importante nessas circunstâncias.
Sob o efeito da cetamina, a amígdala apresenta atividade neural mais baixa que a normal, e algumas pessoas experimentam sentimentos positivos de ausência de limites. Numa situação de quase-morte isso pode significar que quando não existe nenhuma possibilidade de ação os impulsos de ação que partem dessa região cerebral deixam de se manifestar – e os limites reais se dissolvem.

Memória para se salvar

Nos relatos de pessoas que sobreviveram a afogamentos é marcante a ênfase que dão à sensação de “incapacidade de agir”. O cansaço dos músculos, fatigados pela luta com a água, confunde-se com a exaustão psíquica e, nesse momento, podem surgir fragmentos de situações passadas. E ainda que tenham possibilidade de reagir as pessoas se deixam levar por essa espécie de devaneio. É interessante observar que, nesses casos, há forte influência do pensamento “eu estou morrendo!” e, com ele, vem a “colisão de tempos”.

Nesse caso, é importante saber o quanto as vítimas consideravam a situação perigosa; em que medida era possível agir – o que, certamente, teria desviado de divagações interiores; e se a colisão do presente com o futuro não foi evitada pelo fato de a pessoa ter podido se preparar para essa situação em decorrência de vivências anteriores.
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