Reportagem
  
edição 172 - Maio 2007
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No limite da vida
De onde vêm as estranhas imagens e sensações de “transição para o Além”? Pesquisadores acreditam que, ao se defrontar com o próprio fim, nosso cérebro recorre a estratégias de defesa, produzindo sensações que tornam esse momento menos assustador
por Detlef B. Linke
[continuação]

É possível estabelecer conexão entre o curso dos acontecimentos e o tipo de experiência vivida. Exemplo: um operário de construção costumava trabalhar com um pesado cilindro vibratório que nivelava o asfalto recém-colocado. A máquina se movia lentamente e trabalhava de forma bastante autônoma. Certa vez, ela se aproximou tanto dele que o trabalhador não conseguiu se esquivar. Desesperado, tentou afastar o colosso que o esmagava. Para isso, utilizou tamanha força muscular que rompeu a articulação do polegar direito e quebrou um osso da pelve. Mas, no fim das contas, conseguiu se salvar.

Apesar de ter visto o seu fim tão próximo, o operário não viveu nenhuma experiência de quase-morte – pois toda a capacidade de seu cérebro estava direcionada para a ação. Se, por outro lado, a pessoa se encontra várias vezes em situação de grande perigo e conscientemente não sabe como reagir, se inicia uma avalanche de conteúdos da memória que ocupam a lacuna psíquica.

O biólogo evolucionista britânico Charles Darwin (1809-1882) viveu certa vez essa inundação de informações armazenadas quando tropeçou em uma escarpa e só instantes depois recuperou o equilíbrio. Darwin não passou por uma experiência de quase-morte, mas chegou a comentar, a respeito do fato: “Incrível a quantidade de coisas que pode passar pela cabeça de uma pessoa em um período tão curto”. Quem já tropeçou e tentou se equilibrar, instantes antes de se esborrachar no chão, provavelmente notou como o “tempo interno” parece diverso do cronológico nessas ocasiões- – e quantas emoções e pensamentos podem nos atravessar em apenas alguns segundos.

Essa reação do nosso cérebro faz sentido. Eventualmente, uma das muitas informações armazenadas na memória ainda pode nos ajudar a salvar nossa vida. O caso de Darwin mostra que as verdadeiras experiências de quase-morte só ocorrem quando o fluxo mnemônico já não funciona como “área de ação ampliada” – e não representa mais uma possibilidade de refúgio no passado para escapar da colisão de tempos.
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