Reportagem
  
edição 172 - Maio 2007
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No limite da vida
De onde vêm as estranhas imagens e sensações de “transição para o Além”? Pesquisadores acreditam que, ao se defrontar com o próprio fim, nosso cérebro recorre a estratégias de defesa, produzindo sensações que tornam esse momento menos assustador
por Detlef B. Linke
[continuação]

Situação bastante diferente se apresenta quando alguém consegue se preparar para a morte durante muito tempo – o que acontece no caso de doenças prolongadas. Nesse caso, o paciente está preparado para o significado especial desse evento e não é mais surpreendido pela sua chegada – e, por princípio, a colisão de tempos não se configura. Mesmo que a pessoa tenha grande medo de morrer, esse sentimento não aparece de forma abrupta mas remonta a um tempo longínquo. Durante o período de convívio com a doença a pessoa tem a chance de ressignificar pelo menos alguns aspectos desse turbilhão emocional e de buscar sentidos para essa transição.

A experiência adquire aspectos bastante específicos no caso dos suicídios. Uma ocorrência recente ilustra isso. Um jovem resolveu tirar a própria vida com uma arma de pequeno calibre e escolheu fazê-lo numa edícula, ao lado da casa da família. Disparou um tiro, que o feriu sem maior gravidade. O rapaz, porém, passou a noite inteira caído, assaltado pela idéia recorrente de que estava morto. Pela manhã, quando a luz entrou pelas janelas do cômodo, compreendeu que aquele ainda não era seu fim. Portanto, se levantou e foi para o hospital. E levou consigo a bala que tinha penetrado em seu crânio, na região acima do nariz. Como ao atirar ele havia inclinado muito o cano da arma, a bala percorreu um trajeto através dos ossos do crânio, sem lesar o cérebro e nenhum vaso sangüíneo importante. O projétil saiu pelo osso atrás da orelha esquerda. Para esse homem, a idéia de estar morto parecia menos angustiante que o fato de estar vivo – viver uma experiência de quase-morte (que aplacasse o mal-estar diante do desconhecido que aparecia de maneira repentina), portanto, não fazia sentido para ele.

Mesmo a falta de oxigênio não basta, em muitos casos, para desencadear uma experiência de quase-morte; ela tem de ser acrescida à consciência de que se está morrendo justamente naquele momento. Outro fato vivido por mim pode esclarecer essa questão: quando trabalhava anteriormente em uma unidade de terapia intensiva, eu tinha de vigiar, de uma sala contígua aos quartos, os monitores dos pacientes cardíacos. Certa vez, o eletrocardiograma de um paciente registrava movimentos normais, mas se transformou em uma espécie de curva senoidal plana. Corri para o quarto do paciente, convencido de que teria de ressuscitá-lo. No entanto, ele estava sentado em sua cama! Exclamei, muito espantado: “Tudo bem, sr. H.?”. “Sim”, respondeu com uma expressão satisfeita – e desmaiou em seguida. Há uma justificativa para isso: calcula-se que o cérebro consiga manter a consciência por um período de 15 a 20 segundos sem que o coração bombeie sangue até ele. O paciente não tinha nem percebido que seu coração não estava mais batendo direito. O sr. H. foi reanimado – e ele também não viveu nenhuma experiência- de quase-morte, já que não se deu conta do risco que correra.

Luz intensa

Para que se tenha a sensação de “atravessar o portal para o Além” é obrigatoriamente necessário que a pessoa seja acometida de repente pelo pensamento de que está vivenciando a própria morte. No entanto, há casos em que as pessoas passam por experiências semelhantes às vividas em situação de quase-morte sem que vejam sua vida ameaçada – foi o caso, por exemplo, de uma paciente cujo hemisfério cerebral direito havia sido narcotizado por um barbitúrico. O outro lado do cérebro permaneceu ativo e a parte narcotizada continuava observando o ambiente à sua volta.
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