Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Reportagem

O Louro sabe das coisas

Os papagaios estão se livrando do estigma de imitadores. Cientistas já reconhecem que a inteligência dessas aves é comparável à dos golfinhos e chimpanzés

setembro de 2007
Christine Scholtyssex
© WONG HOCK WENG/123RF
A campainha toca e Fernanda se apressa em atender, pensando que é o entregador de pizza. Mas ao abrir a porta e ver que não há ninguém do outro lado, o som continua – trata-se de mais uma das “brincadeiras” de Bóris, seu papagaio de estimação. Cenas como essa mostram a fascinante capacidade dessas aves de imitar sons comuns e vozes humanas. Para muitos cientistas, porém, os papagaios são capazes de bem mais que isso. Segundo eles, esses animais conseguem não apenas entender e responder ao que dizemos, mas também compreender conceitos abstratos simples. Há quem diga que papagaios e algumas outras espécies de aves são tão inteligentes quanto golfinhos e primatas.

Durante décadas, os biólogos pensaram que apenas o instinto controlava o comportamento dos papagaios. Essa visão se baseava nas características do cérebro das aves, que é bem menor e aparentemente mais simples que o dos mamíferos. A fala desses animais era considerada pura imitação, desprovida de qualquer significado. No final dos anos 70, a psicóloga Irene Pepperberg, então da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, deu início a uma longa série de experimentos que prosseguem até hoje na Universidade Brandeis, em Waltham, Massachusetts. O objetivo da psicóloga, que é professora também do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, é definir até que ponto vai a inteligência dos papagaios.

Antes de mais nada, Pepperberg precisou resolver um problema fundamental: de que forma poderia avaliar as capacidades cognitivas desses pássaros? A solução foi usar justamente a habilidade deles de falar, algo totalmente estranho ao repertório de comportamentos usados na comunicação entre os papagaios, o que significa que talvez eles “falem” justamente para se comunicar conosco.

ALÉM DA IMITAÇÃO

Há muito em comum entre a aquisição da linguagem pelos seres humanos e o aprendizado musical dos pássaros. Ambos se baseiam na imitação do comportamento dos indivíduos mais velhos e exigem muito treino e repetição. Pepperberg adaptou um método de treinamento desenvolvido pelo etologista alemão Dietmar Todt, conhecido como técnica modelo-rival.
© WILLIAM MUÑOZ
PAPAGAIO ALEX, com psicóloga Irene Pepperberg: animal interpreta questão e
identifi ca categorias antes de responder à pesquisadora
A sessão funciona da seguinte forma: numa pequena mesa com vários objetos, há dois treinadores sentados em lados opostos e no meio deles, um papagaio. O treinador pega um objeto, mostra-o ao outro e pergunta: “O que é isto?”. O parceiro responde: “Bola. É uma bola”. Então o treinador no 1 elogia o segundo e, como recompensa, lhe dá a bola. Algumas vezes, porém, o treinador no 2 responde deliberadamente de forma incorreta, dizendo, por exemplo, “é um prendedor de roupa”. O primeiro o reprova e retira o objeto de seu campo de visão por alguns minutos.

Em pouco tempo o papagaio está apto a participar do jogo. É recompensado ou repreendido pelos treinadores conforme as respostas que dá. Quando acerta, pode brincar com o objeto por um tempo. Nesse método, o segundo treinador é, para o papagaio, tanto modelo como rival na disputa pela atenção do treinador no 1. Depois de aprender algumas palavras, o pássaro já pode assumir o papel do treinador no 2 e ensinar outros papagaios.

Depois de 30 anos de treinamento, um papagaio cinza chamado Alex, o primeiro estudado por Pepperberg, adquiriu um respeitável vocabulário, que ainda pode ser ampliado, já que alguns espécimes vivem mais de 60 anos. Alex conhece o nome de 50 objetos, sete cores, cinco formas geométricas, sete materiais, seis números e até alguns verbos.

Vocabulário amplo, porém, não é evidência de funções cognitivas superiores, apenas de boa memória. O que importa saber é se o bicho consegue entender o que está dizendo. Para isso Pepperberg submeteu Alex e três outros papagaios treinados em laboratório a vários experimentos. Os resultados obtidos até agora não deixam dúvida de que as aves compreendem o significado isolado de palavras individuais e são dotadas de algumas capacidades cognitivas superiores.
© STANISLAV MIKHALEV/123RF
GATOS, CÃES E POMBOS em geral demonstram pouca habilidade em perceber que
objetos continuam presentes, ainda que escondidos
Os papagaios de Pepperberg responderam de forma precisa a questões como “o que é isto?”. Também compreenderam categorias conceituais como cor, forma e material. Ora, isso envolve o entendimento de que vermelho, verde e azul, por exemplo, são possíveis variantes do mesmo objeto. Alex e seus amigos mostraram que isso é possível. Além disso, aprenderam o significado de “igual” e “diferente”. Quando se colocavam diante deles um círculo e um triângulo, ambos vermelhos, e se perguntava “o que é igual?”, eles respondiam “cor”. Se a pergunta fosse “o que quando não há característica alguma comum ou diferente, demonstrando que conhece o conceito de ausência. Alex também sabe o que significa a partícula “e”. Quando perguntado sobre “o que é triangular e vermelho?”, selecionou, em meio a outros itens, o objeto com as duas características. Seu desempenho ao comparar coisas é impressionante. Ele conseguiu resolver questões como “qual cor maior?” (que significa “qual a cor do objeto maior?”). Isso mostra que o papagaio tem noção de relatividade, isto é, ele identifica qual o item maior ou menor dentro de um conjunto. A idéia de quantidade também foi assimilada. Se mostrarmos a Alex quatro bolas vermelhas, três verdes e mais cinco blocos vermelhos e seis verdes, todos dispostos aleatoriamente, ele responderá corretamente à pergunta “quantos blocos vermelhos?”. Dados recentes sugerem que Alex conta um a um os conjuntos maiores de objetos e reconhece os números menores intuitivamente, de uma tacada só, assim como nós fazemos.

ESPERTO E TEIMOSO

Os papagaios cinza conseguem até mesmo usar verbos e combiná-los com diferentes objetos. Podem dizer, por exemplo, “quero maçã” ou “quero ir cadeira”. Se Pepperberg entrega outro objeto, a ave o rejeita dizendo “não”, repetindo o pedido original. Se levado ao lugar errado, recusa-se a pular no braço do treinador e reitera seu desejo.

Outro exemplo de pensamento abstrato é o chamado problema da permanência do objeto, isto é, a compreensão de que o objeto continua a existir mesmo quando muda de posição ou não pode mais ser visto. Esse conceito básico para o entendimento do meio não é tão óbvio quanto parece. Nos seres humanos essa capacidade se desenvolve gradualmente ao longo do primeiro ano de vida. Cães, gatos e pombos possuem uma idéia rudimentar da permanência dos objetos, mas muito mais fraca do que a observada em papagaios, macacos ou humanos. Eles fracassam, por exemplo, no jogo do copo. Após ver o treinador esconder a bola em um dos três copos e movê-los, um cachorro só acerta o local do objeto por acaso. Alguns primatas e papagaios adultos, porém, têm desempenho tão bom quanto o dos humanos. Estudos com papagaios mais jovens revelaram que a noção da permanência do objeto evolui de acordo com o desenvolvimento de regiões específicas de seu cérebro.
Os papagaios de Pepperberg não se cansam de surpreender a comunidade científica com suas habilidades. E Alex, que é o mais velho, é também o mais inteligente. Já inventou vários termos novos para descrever objetos, como quando devia aprender o termo “maçã”. Nessa época, Alex já havia aprendido os nomes de várias frutas, como banana, cereja e uva. Já havia experimentado maçãs, mas nada lhe fora ensinado sobre elas. Certo dia o treinador pegou uma maçã e perguntou “o que é isto?”. Ele respondeu: “baneja” e deu uma bicada na fruta. Foi corrigido e ouviu “maçã” várias vezes, mas insistia em “baneja”, usando a mesma entonação cuidadosa que o treinador costumava empregar sempre que apresentava um termo novo. Para Alex, as maçãs sempre serão banejas e ninguém jamais saberá ao certo o que ocorreu em seu cérebro quando ele cunhou o termo. Papperberg acha que ele combinou duas palavras conhecidas, “banana” e “cereja”. Talvez as maçãs tenham, para ele, sabor semelhante ao da banana e qualquer fruta com a casca vermelha se pareça com uma grande cereja. “Que cor?” foi a primeira coisa dita por Alex quando ele se viu no espelho pela primeira vez. Estava cansado de ouvir a mesma pergunta, sempre relacionada a objetos coloridos. Isso deixa claro que ele não só compreendeu o conceito de cor, mas que é capaz de usá-lo em situações novas. Surpresa, a psicóloga respondeu: “Cinza, você é um papagaio cinza”. Alex repetiu a mesma pergunta mais cinco vezes e recebeu a mesma resposta. Desde então, “cinza” passou a fazer parte de seu vocabulário.

Os exemplos mencionados são evidências incontestáveis de que os papagaios – e provavelmente várias outras aves – não agem apenas por instinto. Eles são dotados de extraordinária memória e entendem relações complexas. Além de aprender um complicado sistema de comunicação, têm vida social intensa e são muito curiosos. A inteligência que demonstram é comparável à dos primatas e golfinhos e, em algumas situações, até superior. Eles se saíram bem em testes mais exigentes que os aplicados aos mamíferos.

A vida longa dos papagaios permite que estudos de longo prazo sejam feitos. Atualmente os papagaios de Pepperberg estão aprendendo a pronunciar o som das letras e a usar um computador desenvolvido especialmente para eles. Talvez um dia tenham seu próprio site na internet e conversem conosco por e-mail.
CORTESIA DE ERICH D. JARVIS

APARÊNCIAS E SULCOS ENGANAM

Ao compararmos o cérebro de aves que cantam (canoras) com o de um mamífero, duas constatações chamam a atenção: a forma é similar, mas os sulcos do órgão das aves são bem menos proeminentes. Durante muito tempo, a idéia de que muitas circunvoluções significam funções cognitivas superiores levou os cientistas a pensar que as aves tinham poderes mentais limitados. A opinião foi fortalecida pelo equivocado pressuposto de que o cérebro dos pássaros corresponde a regiões do cérebro dos mamíferos as quais regem funções básicas relacionadas ao comportamento reflexo.

Pesquisas mais recentes indicam, porém, que o pallium, parte maior do cérebro das aves, opera junto com estruturas abaixo dele para controlar comportamentos complexos. Quanto maior o pallium, mais inteligente o animal. O córtex cerebral dos mamíferos se originou dessa região e, quanto maior sua proporção em relação ao resto do cérebro, mais desenvolvida a capacidade cognitiva.

Embora o sistema nervoso das duas classes de animais seja estruturado de forma bem diferente, há muitas semelhanças funcionais. Várias partes do cérebro são conectadas por caminhos neurais com funções similares. Quando os papagaios aprendem a emitir novos sons, por exemplo, as estruturas ativadas são análogas às estimuladas em humanos que aprendem a falar. A equipe de pesquisa coordenada pelo neurologista Erich D. Jarvis, da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte, levou em conta essa descoberta para reformular a nomenclatura que descrevia as regiões do cérebro das aves. Os cientistas substituíram antigos termos (acima) que são homólogos às regiões correspondentes nos mamíferos.
© ROBERT HAMBLEY/123RF

VALOR DO AMANHÃ

O planejamento e a preocupação com o futuro sempre foram considerados habilidades exclusivas dos seres humanos, ou pelo menos dos primatas. Coisa do passado: cientistas britânicos demonstraram que uma espécie de ave é capaz de se programar para o futuro, segundo estudo publicado na Nature em fevereiro deste ano.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Cambridge, Reino Unido, coordenada pelo biólogo Nicola Clayton, investigou o comportamento do Aphelocoma californica (foto), pertencente à família dos corvos e habitante do oeste dos Estados Unidos e de parte do México. Em diversas situações de cativeiro, foram simuladas situações de abundância ou escassez de alimento. Observou-se que os animais estocavam mais comida sempre que eram submetidos à segunda condição. Além disso, a poupança alimentar era nutricionalmente bastante variada. “Os resultados sugerem que essas aves são dotadas de processos cognitivos complexos capazes de abranger os conceitos de passado, presente e futuro”, afirma Clayton.
© PRADEEP KUMAR SAXENA/123RF

INTELIGÊNCIA SELVAGEM

Alex e seus amigos realizam façanhas mentais impressionantes, mas já viveram muito tempo no cativeiro e receberam muitos estímulos. Que dizer dos papagaios silvestres? A ordem dos psitaciformes, à qual pertencem, inclui diversas espécies de vida longa: os periquitos australianos vivem entre dez e 15 anos e as araras podem passar dos 50 anos. Boa memória é essencial, pois os pássaros precisam lembrar o local das diferentes fontes de água e de alimento, bem como dos ninhos e dos companheiros. A longevidade significa também que eles presenciam grandes mudanças ambientais, como cheias e secas. Para sobreviver, é preciso certo grau de flexibilidade mental, sendo necessário lembrar experiências anteriores para se adaptar a novas situações.

Quase todos os papagaios vivem em bandos cuja estrutura se assemelha à dos grupos de primatas, o que exige um alto nível de inteligência social. As aves têm de ser capazes de distinguir entre muitos indivíduos e interagir de forma apropriada, com base em experiências prévias. Como os casais humanos, os de papagaios passam bom tempo juntos mesmo quando não estão cuidando dos filhotes. Em algumas espécies, o par pode até aprender a cantar junto, formando um dueto em que cada indivíduo emite notas para o outro.

O uso de ferramentas também foi observado em várias espécies de aves. Para marcar território, os periquitos machos mordem galhos e os batem no tronco das árvores. Outras espécies usam ramos secos e pedras pequenas para afugentar aves predadoras. A manipulação de objetos, como pedaços de madeira e sementes, também é usada pelos mais jovens para explorar o meio e aprender comportamentos sociais, isto é, os pequenos papagaios também gostam de brincar. E é muito provável que eles sejam capazes de aprender ao longo de toda a vida, ampliando constantemente seu baú de experiências.

PARA CONHECER MAIS

Avian brains and a new understanding of vertebrate brain evolution. E. D. Jarvis et
al., em Nature Reviews Neuroscience, vol. 6, nº 2, págs. 151-159, 2005.

The Alex studies: cognitive and communicative abilities of grey parrots. Irene
Maxine Pepperberg. Harvard University Press, 2002.

Fundação Alex. www.alexfoundation.org.