Reportagem
  
edição 171 - Abril 2007
O Louro sabe das coisas
Os papagaios estão se livrando do estigma de imitadores. Cientistas já reconhecem que a inteligência dessas aves é comparável à dos golfinhos e chimpanzés
por Christine Scholtyssex
© WONG HOCK WENG/123RF
A campainha toca e Fernanda se apressa em atender, pensando que é o entregador de pizza. Mas ao abrir a porta e ver que não há ninguém do outro lado, o som continua – trata-se de mais uma das “brincadeiras” de Bóris, seu papagaio de estimação. Cenas como essa mostram a fascinante capacidade dessas aves de imitar sons comuns e vozes humanas. Para muitos cientistas, porém, os papagaios são capazes de bem mais que isso. Segundo eles, esses animais conseguem não apenas entender e responder ao que dizemos, mas também compreender conceitos abstratos simples. Há quem diga que papagaios e algumas outras espécies de aves são tão inteligentes quanto golfinhos e primatas.

Durante décadas, os biólogos pensaram que apenas o instinto controlava o comportamento dos papagaios. Essa visão se baseava nas características do cérebro das aves, que é bem menor e aparentemente mais simples que o dos mamíferos. A fala desses animais era considerada pura imitação, desprovida de qualquer significado. No final dos anos 70, a psicóloga Irene Pepperberg, então da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, deu início a uma longa série de experimentos que prosseguem até hoje na Universidade Brandeis, em Waltham, Massachusetts. O objetivo da psicóloga, que é professora também do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, é definir até que ponto vai a inteligência dos papagaios.

Antes de mais nada, Pepperberg precisou resolver um problema fundamental: de que forma poderia avaliar as capacidades cognitivas desses pássaros? A solução foi usar justamente a habilidade deles de falar, algo totalmente estranho ao repertório de comportamentos usados na comunicação entre os papagaios, o que significa que talvez eles “falem” justamente para se comunicar conosco.

ALÉM DA IMITAÇÃO

Há muito em comum entre a aquisição da linguagem pelos seres humanos e o aprendizado musical dos pássaros. Ambos se baseiam na imitação do comportamento dos indivíduos mais velhos e exigem muito treino e repetição. Pepperberg adaptou um método de treinamento desenvolvido pelo etologista alemão Dietmar Todt, conhecido como técnica modelo-rival.
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Christine Scholtyssex É bióloga e jornalista. - Tradução de Marcel Crovelli