Reportagem
  
edição 171 - Abril 2007
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O Louro sabe das coisas
Os papagaios estão se livrando do estigma de imitadores. Cientistas já reconhecem que a inteligência dessas aves é comparável à dos golfinhos e chimpanzés
por Christine Scholtyssex
© STANISLAV MIKHALEV/123RF
GATOS, CÃES E POMBOS em geral demonstram pouca habilidade em perceber queobjetos continuam presentes, ainda que escondidos
[continuação]

Os papagaios de Pepperberg responderam de forma precisa a questões como “o que é isto?”. Também compreenderam categorias conceituais como cor, forma e material. Ora, isso envolve o entendimento de que vermelho, verde e azul, por exemplo, são possíveis variantes do mesmo objeto. Alex e seus amigos mostraram que isso é possível. Além disso, aprenderam o significado de “igual” e “diferente”. Quando se colocavam diante deles um círculo e um triângulo, ambos vermelhos, e se perguntava “o que é igual?”, eles respondiam “cor”. Se a pergunta fosse “o que quando não há característica alguma comum ou diferente, demonstrando que conhece o conceito de ausência. Alex também sabe o que significa a partícula “e”. Quando perguntado sobre “o que é triangular e vermelho?”, selecionou, em meio a outros itens, o objeto com as duas características. Seu desempenho ao comparar coisas é impressionante. Ele conseguiu resolver questões como “qual cor maior?” (que significa “qual a cor do objeto maior?”). Isso mostra que o papagaio tem noção de relatividade, isto é, ele identifica qual o item maior ou menor dentro de um conjunto. A idéia de quantidade também foi assimilada. Se mostrarmos a Alex quatro bolas vermelhas, três verdes e mais cinco blocos vermelhos e seis verdes, todos dispostos aleatoriamente, ele responderá corretamente à pergunta “quantos blocos vermelhos?”. Dados recentes sugerem que Alex conta um a um os conjuntos maiores de objetos e reconhece os números menores intuitivamente, de uma tacada só, assim como nós fazemos.

ESPERTO E TEIMOSO

Os papagaios cinza conseguem até mesmo usar verbos e combiná-los com diferentes objetos. Podem dizer, por exemplo, “quero maçã” ou “quero ir cadeira”. Se Pepperberg entrega outro objeto, a ave o rejeita dizendo “não”, repetindo o pedido original. Se levado ao lugar errado, recusa-se a pular no braço do treinador e reitera seu desejo.

Outro exemplo de pensamento abstrato é o chamado problema da permanência do objeto, isto é, a compreensão de que o objeto continua a existir mesmo quando muda de posição ou não pode mais ser visto. Esse conceito básico para o entendimento do meio não é tão óbvio quanto parece. Nos seres humanos essa capacidade se desenvolve gradualmente ao longo do primeiro ano de vida. Cães, gatos e pombos possuem uma idéia rudimentar da permanência dos objetos, mas muito mais fraca do que a observada em papagaios, macacos ou humanos. Eles fracassam, por exemplo, no jogo do copo. Após ver o treinador esconder a bola em um dos três copos e movê-los, um cachorro só acerta o local do objeto por acaso. Alguns primatas e papagaios adultos, porém, têm desempenho tão bom quanto o dos humanos. Estudos com papagaios mais jovens revelaram que a noção da permanência do objeto evolui de acordo com o desenvolvimento de regiões específicas de seu cérebro.
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Christine Scholtyssex É bióloga e jornalista. - Tradução de Marcel Crovelli