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Reportagem

Psicologia para decoração

Enfeites e utensílios conferem sentidos aos espaços; peças e cores que escolhemos para nossa casa revelam preferências, características de personalidade e modos de pensar

janeiro de 2010
Glaucus Cianciardi
© igor plotnikov/shutterstock
Parte da história da vida das pessoas está escrita na decoração de seu lar – e carrega informações, como hieróglifos a serem desvendados. A escolha de estilos, cores, composições e peças oferece pistas sobre os traços da personalidade dos moradores de uma casa. Como bem coloca o analista junguiano James Hillman (1926): “Existe relação entre nossos hábitos e nossas habitações, entre o interior de nossas vidas e o dos lugares onde vivemos”. Por meio do estudo mais aprofundado da decoração do lar, é possível fazer uma leitura da personalidade e dos hábitos de seus ocupantes.

Desde a pré-história, o ser humano tem necessidade de imprimir sua marca no espaço onde habita, registrando sua passagem e seu domínio territorial. Nas cavernas de Lascaux, na França, por exemplo, foram descobertos em 1942 desenhos feitos há mais de 15 mil anos. Ou seja: desde os primórdios da civilização as pessoas já buscavam contar sua história, imprimir sua marca e demarcar seu espaço por meio de pintura nas paredes das cavernas. As figuras desenhadas não se repetem, o que expressa nosso impulso ancestral de nos diferenciar dos demais, personificar ambientes e comunicar algo ao grupo social, decorando o lugar onde vivemos.

Uma casa, por si só, não é um lar. É um objeto arquitetônico inanimado, destinado ao abrigo do ser humano; somente após um processo etológico de domínio territorial tal espaço se transforma em lar. A decoração faz parte dessa apropriação espacial. Decorar é, com a mediação de objetos, conferir sentidos a um lugar, tornando-o mais significativo que um simples abrigo; é tornar público o modo privado de ser de cada indivíduo; é apropriar-se do espaço, submetendo-o aos desígnios de quem o habita, de forma que o reflita tal qual um espelho a sua imagem e semelhança.

Como ressalta o arquiteto canadense-americano de origem polonesa Witold Rybczynski em seu livro Casa, pequena história de uma idéia (Record, 1999), a palavra “lar” reúne o significado de casa e família, de moradia e abrigo, de propriedade e afeição. Esse pensamento pode ser complementado pelo arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, quando afirma que o lar é um espaço que integra memórias e imagens, desejos e sentimentos, passado e presente; é o lugar dos nossos rituais e ritmos pessoais de todos os dias. Cada indivíduo possui uma forma de imprimir sua marca no espaço onde habita, revelando sua personalidade e os seus aspectos emocionais.
Não seria exagero dizer que é uma forte agressão impedir que alguém imprima sua marca no espaço onde habita, que identificando e personificando sua moradia. Em seu livro Da Bauhaus ao nosso caos, o jornalista americano Tom Wolfe descreve a profunda insatisfação dos trabalhadores franceses com os apartamentos funcionais de um conjunto operário em Pessac, na França, projetado por Charles Le Corbusier, por serem extremamente cúbicos, assépticos, frios e incongruentes com o tipo de vida dos moradores.

Arquitetos, designers de interiores e decoradores parecem por vezes tiranos por querer impingir aos clientes as suas verdades estéticas e ergométricas. Talvez lhes falte entender que a casa é mais do que uma expressão arquitetônica, que traz em seus volumes, linhas e cores referências psicológicas e sociológicas de quem a habita. Como bem expressa o filósofo Gaston Bachelard, “a casa é o nosso canto do mundo; ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo”. E, como tal, revela nossa identidade, assim como uma impressão digital. Se não for dessa forma, vira cenário – e não lar. Não é morada, é apenas moradia.

A casa, da mesma forma que o próprio ser humano, passa por ciclos: nasce, cresce e morre; muda de acordo com a alma e as vicissitudes da vida de seus ocupantes, acompanhando as suas transformações. Assim, quando se idealiza sua ocupação, a primeira ideia é que, ao fim da construção nem tudo esteja pronto para morar. Se a casa for habitada, seus hábitos também a habitarão, mas eles não chegam antes do morador. “É no exercício de morar que ela se apronta, conforme os hábitos dos moradores”, afirma o arquiteto Juan Pablo Rosenberg.

Apesar de ser um imóvel, a casa não é estática. Ela muda, de acordo com a alma dos seus moradores, acompanhando as suas transformações, expondo a reciclagem de valores por meio de novos arranjos e espaços, cores e tecidos, seus móveis e lustres, planos e lembranças. Mas é importante que essa mudança não seja superficial – e sim a oportunidade de renovação interior, de revisão do passado para refutar tudo aquilo que não mais diz respeito ao indivíduo, mas pode preservar sua memória e a de sua família. É difícil avaliar, porém, até que ponto as pessoas têm consciência de que reformam suas casas por uma necessidade interior de renovação; ou se a renovação interior é o que fomenta a alteração dos espaços. O fato é que há uma correspondência entre o interno e o externo.
Nossas casas podem ser consideradas extensões de nós mesmos. As que não mudam há muitos anos costumam refletir a rigidez, o medo e a insegurança de seus ocupantes. Por outro lado, a mudança constante pode revelar fragilidade emocional e inconstância de quem a ocupa. Como diz o decorador Germano Mariutti: “Entendo o cigano que leva a casa nas costas, mas não compreendo a pessoa que muda a decoração a cada seis meses; (...) a casa tem de ser durável e estável”. Estabilidade esta que paulatinamente sinaliza necessidade de mudança, conforme a vida se processa; pois reestruturar a casa, esvaziar gavetas, arrumar armários, limpar porões e desobstruir os cômodos possibilitam a manifestação do vazio – e o vazio é o único lugar onde as coisas podem acontecer. Daí vem o fascínio pela casa nova, com novas possibilidades, com sua beleza imaculada, como a vida deveria ser. Afinal, “beleza é uma promessa de felicidade”, escreve Allain de Botton.

O papel da decoração, porém, extravasa a promessa de beleza, sua função é fazer com que os ambientes caibam de forma física, social e psíquica no cotidiano das pessoas, comunicando quem são ou quem pretendem aparentar ser. Também é uma forma de comunicar às pessoas onde começam e terminam os limites de cada membro da família.

CORTINAS LEVES
A casa possui uma forma de comunicação não verbal que acaba por delinear a personalidade de seus moradores. Diz o arquiteto Sig Bergamin: “Ela tem sua própria voz; é uma tolice não tentar ouvi-la.” Ouvir essa voz significa decodificar a identidade de seus moradores, suas histórias, hábitos e costumes. Cada casa é única e deve, portanto, ser pensada de forma individualizada, em detrimento do ego do profissional que a projeta e das tendências de mercado, pois a casa é reveladora: identifica o arquétipo de seus moradores.

Uma residência bem iluminada, colorida, com cortinas leves e espaços interligados pode indicar que seu habitante é extrovertido e esfuziante; já lugar entulhado de objetos, com cores pastel, pesadas cortinas e compartimentos segmentados costuma fazer pensar em uma personalidade mais introvertida. Tecidos rústicos podem revelar despretensão, enquanto fazendas brilhantes apontam, em muitos casos, prepotência, arrogância ou desejo de impressionar o outro. Mas nada pode ser avaliado de maneira separada, pois cada elemento decorativo é peça de um quebra-cabeça em busca de decodificação.
© ramona heim/shutterstock
A habilidade dos caracóis de carregar suas casas nas costas fascina as crianças
Cada espaço possui um significado psicológico: a sala tem conotação social, das trocas, das relações; é o local onde se faz a transição entre o interno e o externo, onde se utilizam máscaras sociais na intenção de revelar aos outros quem desejamos ser. A sala de jantar carrega um aspecto formal, onde se busca a socialização da família com os seus convidados, estão implícitos a organização e as normas de etiqueta. Já a cozinha representa o útero da casa, o afeto, a nutrição, é também o espaço das transformações profundas. Os quartos são os lugares onde se sonha e onde a sexualidade pode ser expressa de forma mais livre – referem-se ao inconsciente, à subjetividade, ao corpo e aos prazeres. Sentar na cama de outra pessoa sem que haja proximidade suficiente para isso é uma indelicadeza, uma vez que o leito é um lugar de intimidade, que resguarda sonhos e segredos. Já o banheiro é o espaço do desnudamento, onde se tiram as roupas e as máscaras sociais se desfazem, tornando o indivíduo mais vulnerável, e surge a imagem do verdadeiro eu, frágil e sem artifícios.

Não por acaso, os caracóis sempre fascinam as crianças por poder carregar suas casas nas costas. Sociedades itinerantes, como ciganos, que transportam seu mundo em carroças, ou os tuaregues com suas cabanas também atraem interesse: esses povos – que a qualquer momento se vão – despertam um misto de atração e intolerância. Talvez o fascínio venha do anseio humano por domínio total sobre a casa – e estendendo esse controle sobre si mesmo.
reprodução
imagens feitas há mais de 15 mil anos, encontradas em Lascaux, na França, em 1942

Retratos da Caverna

Desde os tempos pré-históricos o homem marca instintivamente o seu território para criar a noção de propriedade; ao imprimir as mãos sobre superfícies rochosas de seu hábitat ele “se apresentava” como morador daquele espaço. Já as pinturas rupestres comunicavam anseios, medos e a forma como ele via o mundo. Nossos ancestrais faziam registros iconográficos que lhes pareciam importantes ser lembrados, tal qual as fotos que nos dias atuais colocamos sobre estantes, aparadores e mesas; equivalem também a objetos que trazemos de viagens ou compramos em lojas de decoração para enfeitar nossas casas.