Reportagem
  
edição 192 - Janeiro 2009
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Sem preconceitos
Observadas em todo reino animal e mais freqüentes entre espécimes em cativeiro, relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo podem ser uma forma de aliviar o stress, dissipar tensões sociais e obter ajuda para proteger os filhotes
por Emily V. Driscoll
DIVULGAÇÃO
Triângulo amoroso em Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen
[continuação]

FALTA DE OPÇÃO
É verdade, porém, que em muitas espécies (como os pingüins) a homossexualidade é bem mais comum no cativeiro do que no habitat nativo. Segundo alguns cientistas, a explicação pode ser a escassez de parceiros do sexo oposto. Além disso, ambientes restritos aumentam o stress do animal, que pode recorrer ao sexo como um impulso para aliviar suas tensões. Isso a que os especialistas chamam “homossexualidade circunstancial” costuma ser observado também em seres humanos, em ambientes em que predomina um sexo, como nas prisões.

Os primeiros estudos sobre homossexualidade animal datam do fim do século XIX e se concentraram na observação de insetos e animais pequenos. Em 1896, por exemplo, o entomólogo francês Henri Gadeau de Kerville, da Sociedade dos Amigos das Ciências Naturais e do Museu de Rouen, publicou um desenho de dois besouros escaravelhos copulando. Durante a primeira metade do século XX, vários pesquisadores relataram observações semelhantes em macacos babuínos, cobras e pingüins, entre outros. Obviamente, os cientistas daquela época consideravam anormal esse tipo de comportamento. E, em certos casos, os animais eram submetidos à castração ou à lobotomia.

Um desses trabalhos pioneiros foi além da mera descrição e discutiu as possíveis origens da homossexualidade animal. Em um experimento realizado em 1914, o psicopatologista americano Gilbert van Tassel Hamilton relatou relações homossexuais em 20 macacos-do-japão e dois babuínos, destacando que, na maioria das vezes, o comportamento era adotado por inimigos do mesmo grupo para fazer as pazes. No Journal of Animal Behavior, Hamilton escreveu que as fêmeas de babuíno ofereciam sexo às líderes do grupo. “O comportamento homossexual- é relativamente freqüente nas fêmeas quando ameaçadas por outras fêmeas, e raramente se manifesta como resposta ao apetite sexual.” Nos machos, ele escreveu que “as alianças entre machos jovens e maduros podem ter valor de proteção para os últimos, pois garantem o auxílio de um defensor adulto no caso de um ataque”.
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Emily V. Driscoll é jornalista especializada em ciência.