Reportagem
  
edição 192 - Janeiro 2009
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Sem preconceitos
Observadas em todo reino animal e mais freqüentes entre espécimes em cativeiro, relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo podem ser uma forma de aliviar o stress, dissipar tensões sociais e obter ajuda para proteger os filhotes
por Emily V. Driscoll
© PAULINE S MILLS/ISTOCKPHOTO
ENTRE IGUAIS: pintura em parede de túmulo na colônia grega de Paestrum, Itália, de 480 a.C., mostra casais de homens
[continuação]

Em outras situações, as uniões homos-sexuais entre fêmeas aumentam a chance de sobrevivência da cria quando pares macho-fêmea não são possíveis. Nos ostraceiros, aves que habitam zonas costeiras e rochosas, a intensa competição por companheiros machos deixaria muitas fêmeas sozinhas se não fosse a existência de trios polígamos. Em um artigo publicado na revista Nature, em 1998, o zoólogo Dik Heg e o geneticista Rob van Treuren, da Universidade de Groningen, Holanda, observaram que aproximadamente 2% dos grupos de procriação dos ostraceiros eram formados por duas fêmeas e um macho. Os pesquisadores descobriram que, em alguns deles, elas cuidavam de ninhos separados e brigavam pelo macho; mas, em outros, todos os três pássaros zelavam por um único ninho. No último caso, elas criavam laços montando tanto no macho como em outra fêmea. Os triângulos cooperativos produziam mais filhotes que os tradicionais, porque seus ninhos eram mais bem cuidados e protegidos de predadores.

Tais arranjos apontam para a vantagem adaptativa dos relacionamentos sociais estáveis, qualquer que seja seu tipo. A pesquisadora Joan E. Roughgarden, da Universidade Stanford, acredita que os biólogos evolutivos costumam aderir com excessivo entusiasmo à teoria da seleção sexual de Darwin, ignorando a importância de laços e amizades para as sociedades animais e a sobrevivência de seus filhotes. “Darwin igualava a reprodução a encontrar um companheiro, em vez de prestar atenção em como a prole é cuidada”, diz a bióloga.

Proteger os filhotes, criar laços sociais e evitar conflitos, porém, podem não ser os únicos motivos pelos quais os animais se engajam em relações homossexuais. Talvez muitos deles façam isso apenas “porque querem”, diz Bockman. “As pessoas vêem os animais como robôs que se comportam como os genes mandam, mas eles também têm preferências, e reagem de acordo com elas.”

Um estudo recente indica que o comportamento homossexual pode ser tão comum porque tem sua raiz no cérebro do animal. Bem, pelo menos no caso das moscas-das-frutas. Em artigo publicado no início de 2008 na Nature Neuroscience, o neurocientista David E. Featherstone, da Universidade de Illinois, Chicago, descobriu que podia manipular a orientação sexual desses insetos por meio do gene responsável por uma proteína que regula a comunicação entre neurônios que secretam o neurotransmissor glutamato.
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Emily V. Driscoll é jornalista especializada em ciência.