Reportagem
  
edição 192 - Janeiro 2009
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Sem preconceitos
Observadas em todo reino animal e mais freqüentes entre espécimes em cativeiro, relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo podem ser uma forma de aliviar o stress, dissipar tensões sociais e obter ajuda para proteger os filhotes
por Emily V. Driscoll
© GUILU/SHUTTERSTOCK
Ao montarem umas nas outras, as vacas se mostram disponíveis para acasalar com touros
[continuação]

Os machos que carregavam uma determinada variante desse gene eram atraídos de maneira atípica pelos sinais químicos exalados por outros machos. Como resultado, esses mutantes cortejaram os machos e tentaram copular com eles. A descoberta sugere que moscas-de-fruta selvagens podem ter tendências tanto para o comportamento heterossexual como o homossexual, afirmam os autores. Essa arquitetura cerebral talvez permita que a atração pelo mesmo sexo venha à tona com mais facilidade, apoiando a noção de que é capaz de conferir uma vantagem evolutiva em determinadas circunstâncias.

Em algumas espécies menos sociais, o comportamento homossexual é quase desconhecido na natureza, embora possa ser observado em cativeiro. Coalas selvagens, quase sempre solitários, parecem ser estritamente heterossexuais quando estão em seu habitat natural. No entanto, um estudo de 2007 realizado pelo veterinário Clive J. C. Phillips, da Universidade de Queensland, Austrália, mostrou 43 ocorrências de atividade homossexual entre fêmeas que viviam numa área cercada no Santuário de Coalas Lone Pine. Elas também emitiam chamados de acasalamento tipicamente masculinos e acasalavam umas com as outras, algumas vezes participando de múltiplos encontros com até cinco animais.

Phillips acredita que as fêmeas agiam dessa maneira em parte por causa do stress. A falta de machos provavelmente é um dos principais fatores estressantes, segundo o veterinário. Quando as fêmeas de coala estão no cio, seus ovários liberam o hormônio sexual estrogênio, que ativa o comportamento de acasalamento – quer os machos estejam presentes ou não. Esse ímpeto de copular, mesmo com uma parceira, pode ser adaptativo. “Esse comportamento preserva a função sexual, permitindo ao animal manter seu preparo físico reprodutivo e o interesse na atividade sexual”, diz Phillips. Nos machos, esse benefício é ainda mais óbvio: o comportamento homossexual estimula a produção contínua de fluido seminal.

COESÃO DA EQUIPE
Acredita-se que a falta de parceiros do sexo oposto também possa explicar a predominância de homossexualidade em pingüins de zoológico. Além de Roy e Silo nos Estados Unidos, 20 outras uniões homossexuais já foram observadas no Japão. “Mas isso é bastante raro nos habitats naturais dos pingüins”, diz o ecologista Keisuke Ueda, da Universidade Rikkyo em Tóquio. Segundo ele, esse comportamento é resultado da proporção desigual entre machos e fêmeas nesses ambientes. Alguns pesquisadores vêm estudando também as relações homossexuais de rebanhos de gado – algo muito comum, segundos os criadores. Entre as vacas, o comportamento não serve apenas para aliviar o stress, é uma forma de sinalizar receptividade sexual. Ao montarem umas nas outras, as fêmeas indicam sua disponibilidade para acasalar com machos, e o criador aproveita a dica para trazer o touro mais adequado para perto dela.
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Emily V. Driscoll é jornalista especializada em ciência.